- O desejo de expressar a energia da sua própria alma na Terra sempre chega no momento em que se está pronto para um nível profundo de autocura. Por isso, você precisa fazer o que mais teme - dizia ela. Só assim ficará consciente do que evita que você viva seu sonho.
Depois de leve pausa, continuou:
- A maioria de nós teme aprender algo
novo.
- Mas porque temeríamos aprender algo novo? –
perguntei.
- Por que aprender é entrar no
desconhecido. E o desconhecido sempre é um fator de medo e onde há medo há
emoção. Porém, aqui no mundo ocidental, o foco do aprendizado não leva em conta
a emoção, e onde haja emoção há um problema, uma questão.
- Me dá um exemplo? – pedi.
- O que geralmente fazemos com o medo, ao
longo de nossas vidas? Pense nisso por um minuto e me responda - falou ela.
Alguns instantes passaram-se e respondi:
- Tentamos superá-lo,
obviamente.
- Exatamente! Tentamos superá-lo,
dominá-lo, invalidá-lo, repeli-lo ou se livrar dele de todo e
qualquer jeito. Porém, ele não passa de uma criancinha que costumamos
trancar num armário escuro.
- Como assim? - perguntei,
surpreendido. Que eu saiba é preciso superar o medo para alcançarmos nossos
objetivos.
Ficou um silêncio naquele instante.
Aqueles conceitos me deixavam confuso. A busca de todas as pessoas sempre
foi no sentido de alcançar a luz e eliminar a negatividade e escuridão.
Algo novo estava-me sendo apresentado e disso resultava meu desconforto.
Continuei questionando:
- Isso tudo significa transformar minha
escuridão em luz?
- Não complique as coisas - respondeu ela.
As coisas são mais simples. Perceba que não estou pedindo que você transforme
sua escuridão em luz, ou o mal em bem. Escuridão e luz são opostos naturais; um
existe graças ao outro. O verdadeiro propósito da sua jornada não é
fazer com que a Luz conquiste a Escuridão, mas ir além destes opostos e criar
um novo tipo de consciência, que possa manter a unidade, tanto diante da luz
como diante da escuridão. Tem a ver com o amor por si mesmo, e o amor
significa aceitar aquelas partes dentro de você que tem lhe causado tanta dor e desespero. Pode ser mais simples que
isso? – perguntou ela, sorrindo.
Grande era o meu assombro,
frente àquilo que me era dito. Calei as muitas indagações que escaldavam minha mente, permitindo a ela concluir o tema:
- Agora, como podemos
amar o que pretendemos abandonar, trair ou manter trancado num armário escuro?
Preste atenção aos seus sentimentos. Há uma criança batendo na porta de seu
coração pedindo que a deixe entrar na luz, no amor. Quando você aprender
a estender a mão com carinho para esta sua faceta, estará sendo capaz de
transformar a freqüência do medo em amor, entendeu? - indagou ela.
Não consegui frear por mais tempo
a curiosidade que incendiava todo o meu cérebro.
- E se não eu não estiver preparado
para isso? E se não for ainda capaz de estender a mão com carinho para minha
faceta criança?
- O ego
naturalmente continuará a oferecer uma saída, uma solução para você lidar com a
sua dor. E a saída que ele oferece sempre é trazer do mundo de fora as energias
que esta criança interior está precisando. E as energias que ele
mais aprecia é reconhecimento, atenção, amor, prazer e, quase que
absolutamente, o apego ao poder pessoal.
- Como assim apego ao poder pessoal? – perguntei novamente.
- Simples. Tudo aquilo que percebemos e julgamos como “mau” em nosso mundo sempre é o resultado do apego ao poder pessoal. Em outras palavras, é o que mais ocorre quando dividimos a realidade em termos de bom ou mau, certo ou errado, luz ou escuridão. Esta maneira de perceber a vida é apenas uma meia verdade, pois a verdade sempre vai mais além do modo dualista de ver a realidade. Um dia entenderemos que deixar que as coisas sejam, sem rotulá-las de certas ou erradas, sem empurrá-las para um lado ao invés de para o outro, é o que verdadeiramente requer muita força e poder interior.
- Você quer dizer que não julgar é o que realmente
requer poder interior?
- Exatamente! - disse ela. É o poder de estar
totalmente presente, de enfrentar tudo o que existe e apenas observar. O ego,
ao contrário, coloca o julgamento em tudo o que observa. Não há lugar para a
simples observação das coisas. Tudo precisa ser corrigido, dividido em
categorias, precisa ser rotulado como certo e errado.
Alguns minutos se passaram
entre o silêncio e a apreensão, enquanto ela dirigia o carro. Neste
instante, passamos por uma enorme placa na beira da estrada, que dizia:
"IN EXPERIMENTUM VERITAS EST"
- O que é aquilo? - indaguei.
- É melhor pegarmos outra estrada - respondeu ela. Aquela placa significa "o experimento revela a
verdade".
Uma estrada esburacada
Toda aquela conversa me trazia novos pensamentos
e ao mesmo tempo uma perturbação. A estrada pela qual seguiamos agora era toda acidentada, repleta de buracos e pedras. Que lugar seria aquele? Ela pareceu perceber a aflição que começava a dominar-me. Não demorou
muito e falou:
- Não se preocupe. Peguei esta estrada porque não
podemos arriscar. Certamente a polícia está na estrada comum e podem encrencar
para cima de você.
- Com assim? - indaguei.
- Você acha que eles iriam deixar alguém desconhecido
entrar nesta região sem saber quais as suas reais intenções? Estamos quase em
pé de guerra aqui.
- Mas porquê? Quem está em pé de
guerra?
- Por que estamos revelando coisas que
empoderam os seres humanos e os retiram da sua escravidão emocional. Estamos ensinando uma forma completamente nova de ver as
coisas que tem consequências profundamente filosóficas sobre nossa realidade,
afetando a visão de mundo predominante e, por consequência, o "status
quo".
Neste instante, subimos uma
colina íngreme.
- Eu não entendo ainda
que consequências filosóficas isto teria – disse eu.
Neste instante, ela foi reduzindo
a velocidade do automóvel. Olhando para o horizonte, que agora se
apresentava deslumbrante no alto daquela montanha, meus pensamentos pareceram voar em direção ao infinito. Trazendo minha atenção de volta ao
ambiente, ela me chamou e entramos para o
lado direito da estrada, em direção a um penhasco.
- Chegamos – disse ela,
desligando o som e o motor do carro.
- O que iremos fazer
aqui? – perguntei.
- Você gostaria de enfrentar seu medo? -
questionou-me.
- Sim, vim aqui pra isto.
- Então prepare-se!
O Penhasco
Realmente, eu observava que nos encontrávamos em um ponto muito alto e ao mesmo tempo perigoso. A estrada
costeava um despenhadeiro reto, com cerca de 500 metros de queda livre até
alcançar a primeira base de rochas, da enorme montanha, que se perdia abaixo.
Descemos do carro e eu senti no rosto o vento frio que uivava
naquelas paragens. Olhei novamente para dentro do veículo e vi,
instantaneamente, refletir uma imagem de São Francisco de Assis, no banco
traseiro do veículo.
- Você é Franciscana? –
perguntei.
- Admiro São Francisco – respondeu
ela. Foi alguém que conseguiu enxergar a realidade livre do medo. Por isto, ele
podia “ver” o que ninguém via.
- Sim, é claro que sim. São Francisco foi
realmente extraordinário – falei.
- Então é o momento de pensar nele –
continuou ela. Vamos aproveitar e fazer um instante de
silêncio, de modo a entrarmos em sintonia com o nosso propósito aqui na Terra.
Enquanto seguiamos caminhando, ela começou a respirar profundamente. Parecia refletir sozinha.
Olhou para o horizonte e falou a longos haustos:
- Mais doce do que o mais fino
néctar de romã adoçada com mel é a fragrância do vento. Mais doce ainda que o
aroma dos religiosos que veneram e ensinam a sabedoria, Santo é o Anjo do Ar,
que limpa tudo o que é sujo e dá as coisas malcheirosas um suave perfume.
Eu observava com curiosidade
aquele ato espontâneo e singelo. À semelhança de uma poetisa inspirada pelas
forças naturais, via ela continuar sua homenagem.
- Vinde, vinde, ó nuvens! De
cima para baixo sobre a terra, com milhares de gotas, através do seu brilho e
glória sopram os ventos, empurrando as nuvens para baixo, para as fontes
inesgotáveis. Sobem os vapores dos vales das montanhas, perseguidos pelo vento
ao longo da trilha da lei, que aumenta o reino da luz. O Pai Celestial fez a
terra com o seu poder, criou o mundo com sua sabedoria, e estendeu os céus, o
eterno e soberano espaço luminoso, com a sua vontade. Nosso corpo precisa
respirar o ar que vem da Terra. E o nosso espírito precisa respirar a sabedoria
que vem do Pai Celestial. Somos gratos a Ti, Pai Celestial, por todas as tuas
inúmeras dádivas de vida: pelas coisas preciosas do céu, pelo orvalho, pelos
frutos preciosos produzidos pelo sol, pelas coisas preciosas produzidas pela
lua, pelas grandes coisas das montanhas antigas, pelas coisas preciosas das
colinas duradouras, e pelas coisas preciosas da terra – finalizou ela em
atitude de reverência.
Eu percebi, em
verdade, que ela parecia estar abençoando aquele local.
Terminada sua “oração”,
olhou-me nos olhos e disse:
- Peço que você vá
sentar-se na beira do precipício. Você precisa liberar o medo que vem prendendo
você.
- O quê? -
perguntei.
- Isso mesmo. Você acha que
viemos aqui sem um propósito maior? Chegou a sua hora de vencer mais uma etapa
do caminho. Confie em mim – dizia ela, num tom de profunda
concentração.
- Devo sentar-me na beira
daquele abismo? Você está maluca? Sabe quantos metros de
queda livre há até lá embaixo? O menor descuido e minha vida neste corpo
acabará por aqui mesmo - disse temeroso.
- É justamente a experiência
do medo que você precisa enfrentar para poder seguir em frente. Não fuja dela.
Não há outra forma de alguém desfazer ilusões, a não ser olhando diretamente
para elas, sem protegê-las. Não tema, portanto, pois estarás olhando para a
fonte do medo e estarás começando a aprender que o medo não é real. Todo poder é de Deus. O que não é de Deus não tem poder para fazer nada.
Fiquei pensativo durante alguns
instantes. Todo aquele caminho estava levando-me a encarar a mim mesmo, sem máscaras nem fingimentos.
Só aprendendo o que é o medo -
continuou ela - poderá finalmente aprender
a distinguir o possível do impossível e o falso do verdadeiro. Portanto, quero que você vá até lá, sente-se na
beirada, olhe para baixo e permita ao medo que reside dentro de você emergir e
vir à tona. Simplesmente sinta-o! Permita que ele exista e esteja junto com
ele. Não abandone a si mesmo – rematou ela.
- Mas isto parece loucura. E este
precipício? – falei, ainda resistente.
- Sim, para muitos pode parecer
loucura. Muitos há que desejam encontrar o seu poder, a sua própria luz. Porém,
raros tem a coragem de sentir a sua dor mais profunda e atravessá-la. E não há
como encontrar um sem passar pelo outro. Quanto mais profundamente for em
direção à sua própria luz, mais ficará frente a frente com o medo da sua
solidão interior. E é somente ao atravessar seu medo, sentindo-o completamente,
que você encontrará sua própria luz, sua própria força e poder. Eu sei que isto
lhe traz insegurança – continuou ela. Como eu já lhe disse, o desconhecido e a
incerteza sempre foram fatores de medo e onde há medo há emoção. O medo marca o
limite entre o que nos parece familiar e seguro e o que não nos parece.
Dirigiu-me então até a ponta do penhasco,
lentamente, pé por pé. À medida que caminhava o riso começou a tomar conta
de mim. Sempre quando enfrento situações amedrontadoras, começo a
gargalhar sem parar. Era simplesmente imenso aquele abismo. Fui me agachando até me sentar no chão. A experiência ali era de “gelar” a espinha completamente.
À distância, ela falava:
- Sinta o seu medo, por favor.
Não recuse seus sentimentos mais profundos. Esteja com você, presente, na sua
maior dor. Você pode! Você consegue!
Eu me achava um
louco atendendo o pedido dela. No entanto, de certa forma, concordava que ao
fazer justamente aquilo que me dava medo, seria capaz de senti-lo, de
trazê-lo à tona e liberá-lo. Minha barriga, naquele instante, encontrava-se
contraída. Eu olhava para baixo e não acreditava. Minha vida estava por um fio.
Começei a apavorar-me com a ideia de resvalar e cair. Quem me acharia? É
melhor eu sair fora e voltar – pensei.
- Agora, fique em pé – dizia ela. Fique em pé!
Meus olhos se fecharam. Ela não é louca - pensei. Eu é que o sou por estar aqui fazendo o que ela me pede. O final daquele precipício era simplesmente absurdo. Repentinamente,
porém, como que por encanto, ouvi um “piar” de um passarinho ao lado de minha mão. Abri meus olhos e, incrédulo, havia realmente uma andorinha rola quase
encostada ao meu corpo. Eu não podia acreditar no que via. Só poderia ser um
sinal, pois as coisas nunca acontecem ao acaso. Ela piou, piou, e foi dando a volta
ao meu redor até levantar vôo. Aquele fato me encorajou. Eu não estava
sozinho, ali. Um pingo de alegria se fez em minha alma.
- Levante-se – dizia ela,
enfaticamente. Fique em pé. Sinta todo o seu medo, AGORA. Esteja junto à sua
dor e não a deixe sozinha. Ela é uma parte de você, a sua sombra, e quer vir à
luz para ser liberada.
Eu fui me levantando aos poucos.
Tremia. Realmente meu corpo todo sentia um profundo pânico. Uma espécie de
vertigem parecia se apoderar de mim, enquanto me levantava.
- Olhe, para baixo – continuou. Olhe para baixo.
Dizendo isto, ela se aproximou e
encostou sua mão em meu ombro.
- Sinta o seu medo, agora. Qual ele é?
É o medo de não ter poder nenhum sobre a realidade, de não poder controlá-la
com o seu pensamento e a sua vontade? Sinta e diga-me o quão insignificante
você é. Vê aquelas andorinhas voando lá embaixo? – perguntou-me, apontando com
a mão para baixo.
- Sim – respondi.
- Elas são infinitamente superiores a
você, neste momento. Elas podem voar e você não pode. Elas são livres e você é
um escravo. Escravo do seu próprio medo de encarar a sua sombra e escuridão
interior. Diga-me qual é o seu maior medo? Você tem medo de se sentir
rejeitado? Você tem medo de não se sentir amado? Qual é o seu medo mais
profundo? Deixe-o emergir, sinta ele e o compreenda. Permita que ele exista e o
liberte. Nada deixará a sua realidade, a menos que você a ame. Amá-la é igual a
“libertá-la”. Todo o ser humano conhece o medo. Cada um de nós conhece a sombra
e a solidão de estar envolvido no medo. Quando o medo se mostra
abertamente no rosto de uma criança, a maioria das pessoas reage
instantaneamente estendendo as suas mãos. Mas e quando o medo se mostra de
forma indireta, através de máscaras de violência e brutalidade? Hein? - indagava ela. Parece
imperdoável, não é mesmo? Quanto mais destrutivo e cruel é o comportamento,
mais difícil é perceber o medo e a desolação que existem por trás dele. Mesmo
assim, você pode ser capaz de percebê-lo. A partir das profundezas da sua
própria experiência de medo e desolação, você pode entrar em contato com o
profundo medo nas almas dos assassinos, sequestradores e criminosos. Você
conseguirá entender as ações deles. E se fizer isso,
baseado nas suas próprias experiências íntimas com a escuridão, você pode
liberar isso tudo. Você pode deixar
que tudo isso exista, sem a necessidade de julgar nada.
Aquelas palavras
ditas ao pé de meus ouvidos davam-me a impressão de que nunca mais seriam
esquecidas por mim.
- Se você verdadeiramente entender o
medo como um poder que existe e com o qual você está totalmente familiarizado
através de suas experiências de vida, você pode deixar de julgar - continuava
ela. O medo não é nem bom e nem mau. O medo É, e possui um determinado papel a
desempenhar. Se você puder simplesmente deixá-lo existir, se não temer seu
próprio medo, verá que ele é inofensivo. O medo é inofensivo, está me ouvindo?
Ele é inocente como uma criança. Não há nada de errado com o medo. No entanto,
se você o coloca sob julgamento, quando se sente desconfortável com ele e o
rejeita, então ele se torna essa imensa coisa escura, um demônio que o
aterroriza e paralisa, contra a sua vontade. Por isso, não tente expulsá-lo,
porque a intenção de eliminar o medo traz um julgamento embutido. A sua parte
medrosa ficará mais medrosa ainda se você encetar uma batalha com ela, porque
deste modo ela receberá a mensagem de que não é boa, de que é desprezível. Você
está me entendendo? Está me entendendo? – perguntava ela,
enfaticamente.
- Sim – respondi.
- Esse caminho deve ensiná-lo a
encarar o que quer que esteja dentro de você, porque somente então você poderá
realmente se amar. Essa experiência vai liberar energias criativas poderosas
que vão progressivamente trabalhar a seu favor na vida e abrir os canais para o
seu “eu” espiritual. Você será capaz de encarar a vida como ela é, sem medo,
porque você já não tem medo de si mesmo. Você está sendo preparado para se
confrontar com sua dor interna, onde precisará olhá-la com compreensão e
aceitação, pois o ponto decisivo ocorre quando você deixa de julgá-la. Só então
você passará a viver apoiado no seu coração – finalizou ela.
Aquele ar limpo e fino, no cimo daquele
penhasco, uma vez mais corria por sobre a minha espinha, fazendo vibrar a força
dos meus músculos. Um resto de vontade dentro de mim parecia ainda querer
controlar a situação, impedindo-me de experimentá-la por inteiro. Eu estava
mais uma vez lidando com minha própria resistência a encarar a dor e desolação
que existiam em meu interior. Estava resistindo a fitá-las nos olhos e
aceitá-las como uma presença viável. Eles eram uma parte minha, a parte que foi
ferida, frustrada e mal-orientada, e que agora me chamava, para que eu a
reconhecesse e a compreendesse. Era impossível frear o que estava em vias de
acontecer. Enquanto eu ainda resistia, era como se os meus sentimentos
continuassem a bater e a forçar a porta dentro de mim. Foi então que uma voz interna soou veemente, vindo em meu socorro:
“Não resista, não resista. Você não está aqui para lutar ou se
defender, nem para convencer ninguém. Está aqui para se libertar e se entregar
ao nascimento de Você, do seu verdadeiro Eu, que está esperando que isto
aconteça”.
A força daquelas palavras
conduziu consigo uma Corrente de Vida que, por sua vez, vibrou dentro do meu ser,
com um poder parecido ao de uma corrente impetuosa depois de uma tempestade de
primavera. Sentindo o âmago do meu ser começar a pressionar, a forçar-me,
empurrando-me para o centro remoinho da grande força, que pretendia fluir,
agora, feroz, dentro e fora de mim. Minha percepção foi sendo deslocada, desviada
para um ponto neutro em minha consciência, um ponto de neutralidade, a partir do
qual eu enxergasse a mim mesmo como um observador, sem a tentativa de mudar
nada, onde me permitisse ser apenas eu. Olhei novamente para baixo, para o
interior daquele abismo e, à semelhança de um paciente, cujos últimos suspiros
de vida dão sinais visíveis de término, “vi” desprenderem-se, um a um,
os longos dedos da resistência, que, por fim, largaram a minha fronte. E eu já
não precisava mais de rir nem de chorar. Não havia mais nada que me impedisse de
sentir os sentimentos pesados de dor, tristeza e medo que fluíam, agora,
ferozes, através de meu ser. Eles passavam por mim e eu sentia o que realmente
estava acontecendo no meu interior.
O antigo estava sendo levado para o túmulo, mas antes que conseguisse fazer isto, era preciso
olhá-lo nos olhos e fazer as pazes com ele. Do contrário, ele não descansaria
em paz. Em outras palavras, era preciso aceitar a escuridão que existia dentro
de mim mesmo e no mundo, antes de poder se elevar sobre ela e ser livre.
Sentia como se uma espécie
de "nó" estava sendo desfeito dentro de mim. Aos poucos, respirava
fundo, lentamente, enquanto um sentimento leveza passou a me envolver. Uma sensação branda percorreu todo o meu espírito. E apesar de
todas as minhas “imperfeições” e “falhas”, agora eu conseguia ver mais nitidamente o quanto eu era importante para mim mesmo. Sim, e essa era a única conscientização que
contava, de agora em diante.
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