LabIDR – Laboratório
Itinerante de Diálogo Regenerativo
Diário de viagem 25# Marechal Taumaturgo ... dia 6/2/2020
Diário de viagem 25# Marechal Taumaturgo ... dia 6/2/2020
Viemos de barco no dia 23 de janeiro da cidade de Cruzeiro do
Sul, pelo rio Juruá. Este rio possui enterrado sob suas águas uma civilização
INCA, uma PIRUÁ e também a grande e rica civilização dirigida por Casimir
Poseidon. Tínhamos a ideia de passar pela cidade Marechal Taumaturgo, antes de
continuar viagem ao Peru. Seria mais algum tempo viajando de barco para
chegarmos até lá.
Na cidade de Cruzeiro do Sul, a secretária do meio ambiente
havia falado acerca do trabalho de uma liderança indígena do povo Ashaninka, o
senhor Bencke, que tinha uma cadeira representativa junto ao conselho dos povos
indígenas da ONU – Organização das Nações Unidas. O senhor Bencke dirige também
o centro Yorenka Ãtame, na cidade de Marechal Taumaturgo.
Ao chegarmos à cidade, fomos direto procurar o referido local.
Procuramos pelo senhor Bencke, na expectativa de que fossemos encontrar um
cacique ancião. Para nossa surpresa, ele era um jovem. Porém, era nítido que
tínhamos ali um ancião num corpo jovem. Suas palavras eram verdadeiras flechas
e empreendia um trabalho gigantesco na região. Ao encontrarmos ele, pedimos
para passar alguns dias ali no centro Yorenka Ãtame. Na hora ele nos hospedou.
O local onde está o centro Yorenka Ãtame hoje, era uma área extensa da floresta
amazônica que infelizmente havia sido transformada em pasto, pelo homem branco,
para alimentar gado. O senhor Bencke felizmente reverteu isso e reflorestou
toda a região. Hoje o local é visitado por pessoas do mundo inteiro como
verdadeiro exemplo e referência de projeto sustentável, dentro da floresta.
Na primeira noite no local, fomos convidados para participar da
cerimônia de ayahuasca, dentro da tradição Ashaninka. Havia também um grupo de
estrangeiros hospedados ali, de diferentes países. Conheci pessoas até de Nova
York, que estavam no Brasil pela primeira vez. O desenho da cerimônia, seus
cantos e rezos, me surpreendeu completamente, que não há como descrever aqui.
No entanto, o ensinamento que veio foi mais surpreendente ainda. Não imaginava
que neste ponto da viagem, no coração da floresta, eu receberia da própria
medicina ayahuasca a orientação para não usar mais nenhum tipo de medicina da
floresta e focar minha energia, total e completamente, no trabalho que eu tinha
a realizar.
Desde então, entreguei meu cachimbo com tudo o mais que utilizava para rezar e, muito agradecido, me despedi deste caminho.
Desde então, entreguei meu cachimbo com tudo o mais que utilizava para rezar e, muito agradecido, me despedi deste caminho.
Saímos do centro Yorenka Ãtame e fomos até a cidade de Marechal
Taumaturgo para falar com o prefeito. Fomos pedir que nos pagasse a viagem de
retorno pelo rio. Não iríamos mais para o Peru. Nosso destino agora seria a
cidade de São Paulo, com o fim de participar ativamente da vida na matéria. Ao
nos receber, porém, o prefeito indagou sobre o que fazíamos. Falei a respeito
de nosso trabalho e pesquisa. Na hora, ele chamou o secretário da educação e
pediu para marcar uma formação com os professores e profissionais da educação
do município. Nos hospedou num hotel e, desde então, já fizemos uma formação e
temos outra marcada para a semana que vem. Nisso, tenho conseguido o tempo
necessário para escrever sobre o tema “Diálogo, produção de conhecimento e
escuta empática no ambiente escolar”.
O que me surpreendeu também, durante a formação com os
educadores, foi o retorno deles dizendo que a metodologia por nós empregada
atende as competências solicitadas pela BNCC, “Base Nacional Comum Curricular”,
estipulada pelo MEC para guiar a atuação dos educadores. Eles já receberam
outras formações sobre as orientações estipuladas pela BNCC, nunca, porém,
haviam visto de forma prática aquela teoria. Nós oferecemos uma metodologia
prática, ao invés de teórica, e isto foi inovador para eles. Ficamos felizes
com isto! Esta metodologia foi criada de forma marginal, ou seja, à margem dos
bancos acadêmicos, na relação estreita com os caminhoneiros, com os andarilhos,
com o povo da rua e nativo da floresta.
Eu e a Manuela atiramo-nos no desconhecido, com as roupas do
corpo, a luz da fé acesa e uma barraca, e temos sido positivamente
surpreendidos a cada momento. Nenhuma de nossas necessidades deixou de ser
atendida, ao longo da viagem. Estamos tão longe de nossas casas e sendo
acolhidos com tanto amor pelos lugares onde temos passado. Recomendo a todos
que mantenham acesa a luz dos seus sonhos, a coragem, a fé e o amor por todos
os negros, índios, gays, lésbicas, transexuais, brancos e aqueles que são
diferentes do padrão. Talvez este seja o mais importante aprendizado recebido
até agora, infelizmente: que precisamos especificar que as pessoas fora do padrão são gente
iguais a todas as outras e que o amor, a atenção, o cuidado e o respeito são
para todos.
Com a luz acesa
Tiago Bueno
Até breve!






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