Eu e minha colega Naicha fomos realizar uma observação de campo junto à entrada de uma escola da rede pública, na periferia de Porto Alegre. Nosso objetivo era, ora incidir uma visão crítica, observadora, diretamente sobre o desenvolvimento emocional das crianças, ora o fazer através de diálogos informais com pais, educadores e as próprias crianças. Peço licença aqui para descrever como foi o procedimento.
Ao chegarmos lá, Naicha começou a trazer a seguinte reflexão:
- Note as novas oportunidades de aprendizado em potencial que se apresentam aqui. Estão parados à nossa esquerda um garotinho, por volta dos 8 anos de idade, com a sua mãe. Nós iremos investigar a respeito da área das emoções, que é uma área vital para qualquer ser humano que deseja seu crescimento em direção à liberdade e à integridade. Um professor, que trabalha diretamente com o desenvolvimento do ser humano, deve procurar saber da importância das emoções: que não devemos reprimi-las, que devemos chegar a um acordo com elas, que finalmente devemos liberá-las. Mas nem sempre está claro como isso realmente funciona. Inclusive existe uma semelhança notável entre a forma como lidamos com as nossas emoções e a forma com que lidamos com as nossas crianças.
Invalidação dos sentimentos
A mãe que estava ao nosso lado começou, então, a conversar com a criança. Prestávamos atenção ao diálogo, enquanto eu ia registrando num caderno de notas as coisas mais aparentemente pouco importantes: a maneira de conversar; sua forma de ser; seu comportamento; as expressões; a linguagem, suas palavras, sua sintaxe, que não é o mesmo que sua pronúncia defeituosa, mas a forma de construir seu pensamento.
- De novo não! – começou dizendo ela. Olha, Joaquim, você já é grande, não é mais um bebê. Não se altere toda vez que lhe derem um “gelo”. Deixe isso pra lá. Procure outro amigo. Vá ler um livro ou brincar de outra coisa.
- Mas eu fiquei triste, mãe. Por que me cortaram do futebol? – retrucou o garoto.
A mãe do menino, parecendo um pouco impaciente, disse-lhe:
- É, mas já é hora de você começar a encarar essas situações de modo diferente. As pessoas nem sempre vão lhe agradar. Quem sabe você começa a ficar feliz e agradecer pelo que tem, pois muita criança por aí gostaria de ter a metade das coisas que você possui – finalizou ela.
Nós acompanhávamos o diálogo à pouca distância. Indiscutivelmente, aquele instante não comportava minha avaliação. Meu papel era o de um observador compreensivo, que deveria redigir um pequeno relatório, cujo conteúdo seria discutido posteriormente. Esperei pela Naicha e ela não tardou em falar-me ao pé do ouvido:
- Note que esta mãe, por maior boa vontade que tenha, pode ter acabado de derrubar a autoestima do seu filho.
- Porquê? – perguntei.
- Pelo simples fato de dizer ao seu filho como ele deve se sentir.
- Isso seria suficiente para derrubar a autoestima da criança? – tornei a indagar.
- Isso, em geral, só leva a criança a desconfiar do que sente, o que a deixa insegura e a faz perder a autoestima. Pode parecer simples e até não ser nada demais para uma mente adulta. No entanto, para uma criança pode ser a devastação total. Estas pequenas invalidações do que ela sente constroem e solidificam a crença de que ela está errada. O clima constante de não-aceitação da sua individualidade afeta a criança como um choque pequeno mas constante, que frequentemente deixa uma marca mais forte que uma única experiência chocante e traumática. Assim, ela cresce e se torna num adulto, em termos da sua fisicalidade. Cresce também intelectualmente, mas lá dentro, como pano de fundo em seu inconsciente, mora aquela pequena criança que, por vezes inúmeras, recebeu a invalidação dos seus sentimentos. O nome dessa criança é medo. Medo de estar errada por sentir o que sente e, por conseguinte, de expressar quem realmente é, pois vive na negação de si mesma. Isto faz com que os indivíduos cresçam sentindo-se isolados da vida, pois estes sentimentos e emoções, ao invés de desaparecerem, acabam por ficar soterrados, causando angústia e sofrimento. As crianças, em grande parte, toda vez que ouvem coisas do tipo: “quem sabe você começa a ficar feliz e agradecer pelo que tem”, como ouvimos na fala dessa mãe, aprendem a isolar o que se passa dentro de si por vergonha de estarem erradas.
- Seria tanto assim? – questionei.
- Pois é, estamos investigando o pensar do povo. E queremos descobrir como podemos conseguir tocar uma criança com sucesso, ou então como podemos criar uma conexão com aquilo que a criança está experienciando: os sentimentos e emoções que provocam o comportamento exterior. E estamos descobrindo que se dissermos à criança que ela tem o direito de sentir sua tristeza, sua raiva, sua mágoa, etc, e que há formas diferentes de expressar o que sente, ela fica com o caráter e a autoestima intactos. E fica sabendo, ainda, que tem um adulto compreensivo do seu lado para ajudá-la a deixar de se sentir arrasada e encontrar uma solução.
Naicha parecia uma veterana quando falava sobre aprendizagem emocional. Imprimindo grave entono à voz, voltou a acrescentar:
- Note, por exemplo, que os bebês e crianças são como esponjas. Eles absorvem praticamente tudo o que vêem e ouvem dos adultos. E o pior é que acabam generalizando aqueles conceitos apreendidos para quase todas as áreas de suas vidas.
Fundação x Estrutura
Com esse olhar, ela me chamou a atenção para observar outra cena, que se desdobrava à nossa frente. Duas crianças e um pai. Uma menina por volta dos seis anos de idade e sua irmã com, acredito, seus quatro anos de idade. A maior implicava com a menor, inventando motivos para se ofender. Dizia ela:
- A Paula está olhando de novo para mim!
Em cada interação, a maior colocava a menor como vilã, embora aparentemente ela não fizesse nada de errado. Observávamos aquela cena, curiosos. Vimos, então, o pai intervir na situação dizendo:
- Que coisa mais feia, nem parece que é a irmã mais velha. Sua irmã está tão comportada e você fica aí causando má impressão. O que as pessoas irão pensar? Talvez pensem que eu não lhe dou educação – disse o pai.
Bastaram aquelas poucas palavras para que a menina entrasse em total silêncio e quase desespero. Vimos ela se emburrar e encher os olhos de lágrimas, que não chegaram a cair.
Boquiaberto com o que me era dado perceber, enderecei novo olhar interrogativo à Naicha que, após haver acompanhado a cena, informou:
- A mágoa parece estar sendo internalizada.
Ergui os olhos repletos de indagações. Ela então completou, dizendo:
- É bem provável que os dizeres deste pai levem a menina a não se sentir boa o suficiente e muito menos amada por ele, em quem deposita toda a sua segurança e afeto. Ainda, aquele pai, como frequentemente acontece, tratou o problema somente na “estrutura”, em lugar de fazê-lo na “fundação”.
- Mas de que modo ele poderia tratar o problema na “fundação”? – indaguei.
- O adequado – disse ela – é enfrentar o estado de carência da criança, e isto é feito procurando ouvir os seus sentimentos. O que aconteceu, porém, foi que o pai voltou a consciência da filha para o exterior, quando buscou motivá-la a mudar seu comportamento através do uso infeliz da comparação com a irmã menor e do medo a respeito do que as outras pessoas poderiam pensar. Se a criança se emendar por causa disso, será devido à culpa e à vergonha. As crianças realmente não sabem como expressar suas emoções. Elas vão buscar expressá-las por meio de atitudes e comportamentos que nem sempre são fáceis de decodificar, o que acaba sendo intrigante. No entanto, se ouvirmos com atenção e com o coração aberto é possível decodificá-las. Considero ser essa a base da verdadeira ajuda. Por exemplo, talvez aquela menina estivesse querendo dizer: “Pai, eu estou com medo de que o senhor não me ame o suficiente. Tenho medo que você e a mamãe gostem mais de minha irmã do que de mim. Eu preciso saber se vocês me amam tanto quanto a ela.” Ouvir a emoção de uma criança é sempre uma oportunidade de intimidade, onde podemos ajudá-la a encontrar palavras para identificar o que está sentindo. Nessa situação, o Pai poderia, por exemplo, ter lançado uma pergunta de investigação, dizendo: “Minha filha, quero escutar o que o seu coração está querendo me falar. Ele está se sentindo triste, com medo, é isso?”. A fundação, para qualquer criança, é saber que ali se encontra um adulto que acolhe e está pronto para ouvir seus sentimentos, antes de rejeitar seu comportamento. A “estrutura”, então, virá após a criança ter essa garantia, pois é o momento em que ela está aberta para receber o ensinamento e direção que a ajudará a mudar o seu comportamento. Porém, oferecer soluções aos problemas da criança ou querer mudar seu comportamento, antes de mostrar empatia por aquilo que ela sente, é o mesmo que construir a estrutura de uma casa sem a sua fundação. E é o mais comum hoje em dia.
Empatia em sala de aula
Calei-me, atendido em minha fome de elucidação. Nesse momento, voltei o olhar para as árvores que cercavam a escola. Fiquei pensando no quanto precisamos criar um ambiente seguro à autoexpressão dos estudantes em sala de aula, e lembrei-me que, certa vez, fui contratado por uma instituição que realizava um trabalho social com jovens em situação de vulnerabilidade de diferentes partes do Brasil. Eles foram reunidos num final de semana em Porto Alegre e estavam disputando a chance de viajar para o Chile, a fim de participarem de um grande evento sobre protagonismo social. Este evento lhes abriria a porta de acesso a muitas possibilidades. Não participar do mesmo significava voltar à dura realidade de dificuldade e exclusão em que viviam. Os organizadores do evento, então, me chamaram para trabalhar com eles algum tipo de dinâmica que os ajudasse a lidar melhor com a ansiedade e a pressão. Num curto período de tempo, criei, junto com os jovens, uma dinâmica de escuta empática em duplas e depois uma outra em grupo. Muitos relatos surgiram. O medo de não atenderem a grande expectativa das autoridades que lhes abriam aquela oportunidade era grande. O fato, porém, daqueles jovens terem um espaço seguro para falar sobre seus sentimentos e simplesmente serem ouvidos e acolhidos, sem que alguém ali os tentasse moldar, ajudar, dar conselhos, motivar ou resolver seus problemas, fez com que se sentissem mais confiantes em poder aceitar sua vulnerabilidade e serem bem-vindos com sua imperfeição. O peso da vergonha e da culpa por não se sentirem preparados o suficiente diminuiu com a escuta recebida. Agora, estavam mais livres para seguir em frente sendo quem eles eram. Uma jovem, então, relatou o seguinte, ao final do encontro:
“Bah, saio daqui me sentindo um pouco mais livre. Assim... porque... eu acho que... não sei porque... de alguma maneira, no contexto em que a gente tá, é muito difícil olhar pra dentro de si mesmo e se perceber com... com honestidade mas sem autojulgamento e... consequentemente a gente julga afú os outros, sem nem perceber muito, no automático, porque existem regrinhas que a gente segue e não questiona, não olha, e... não sei... o exercício de hoje, que foi só escutar as pessoas, simplesmente, e conferir com elas se a gente tinha escutado o que ela realmente quis dizer, me... me... me proporcionou uma serenidade muito forte, porque é realmente muito simples, apesar de exigir muita coragem ser honesto o suficiente pra conseguir expor seus próprios sentimentos sem se sentir... quer dizer, se sentindo vulnerável mas trazendo a vulnerabilidade pra fora, e aí se sentindo escutado, aceito e ajudado pelos outros, pelas perspectivas... não sei... me deu uma coragem muito maior pra conseguir olhar pra mim com honestidade e... e pras outras pessoas com menos julgamento... e isso é muito louco (risos) porque é muito simples e muito libertador. Eu tô muito feliz e muito ansiosa, muito ansiosa pra fazer isso cada vez mais.”
Assim como essa jovem do relato acima, muitos outros estavam lutando um duro combate consigo mesmos, na tentativa de serem melhores do que são. No entanto, quando receberam uma escuta empática, conseguiram relaxar e se distanciar, pelo menos um pouco, da imagem de pessoa que eles acham que deveriam ser, a fim de ficarem com quem realmente são. Conseguir ficar com quem se é, aceitando-se do jeito que se é, considero ser o solo fértil para caminharmos em direção a um novo nível de consciência. Um nível cuja base é a segurança interior e a autoconfiança, e através do qual é possível alcançar muito mais abertura à autoexpressão e criatividade.
Preparação Emocional
Naquele momento em que eu refletia, cruzou por nós uma criança chorando, que aparentemente teria cerca de seis anos. Naicha chamou-lhe e perguntou o que havia acontecido. Sua resposta, choramingando, foi: “meu brinquedo de argolas quebrou”. Nisso, chegou ali junto uma senhora que, rapidamente, com a intenção de ajudar o garoto, disse-lhe que não era mais preciso chorar, pois o brinquedo poderia ser aproveitado de outra maneira. Mesmo assim, o garoto continuou chorando.
Naicha, então, aproveitou o ensejo e disse-me:
- A criança é sincera e espontânea em suas emoções e não as esconderá nem as reprimirá, até que os adultos a incentivem a fazer isso.
Dessa forma, antes que a senhora insistisse no argumento, Naicha fez uma intervenção dizendo:
- Eu poderia conversar um pouco com ele?
Sem entender muito, a senhora deu de ombros e fez um sinal de positivo. Naicha olhou novamente pra mim e disse:
- Preparar uma criança emocionalmente significa fazer com que ela cresça sendo capaz de suportar o sofrimento inerente à própria condição humana.
Dito isso, se dirigiu ao garoto perguntando qual era o seu nome e o convidou para se sentarem num banco próximo. Vi, então, ela usar uma técnica muito simples de empatia, que é refletir o que a criança está sentindo, através de uma pergunta. Disse ela:
- Rickson, você está triste?
- Sim – respondeu ele, chorando.
- Você também está chateado, não é mesmo? – continuou indagando.
- Sim, eu estou chateado por que minha argola quebrou – respondeu.
- Eu só quero dizer que a sua tristeza e chateação são bem-vindas, e que você pode chorar – falou isso trazendo sua cabeça para junto de seu ombro.
Ele chorou por cerca de três minutos, enquanto vi ela acolher e acariciar sua cabeça. As lágrimas então secaram. Ele ficou ao seu lado mais um pouco e logo saiu para brincar.
Nisso, para nossa surpresa, outra criança apareceu chorando. A cena era idêntica à anterior, só que agora quem chorava era uma menina, um pouco menor, talvez por volta de seis ou sete anos de idade. O brinquedo dela era igual ao que o Rickson carregava, e ainda havia sido quebrado no mesmo lugar. A senhora que ainda estava por perto, obviamente querendo o melhor para a criança, repetiu as mesmas palavras que utilizara anteriormente. A Naicha, então, interviu novamente, chamando a menina. Algo parecia gritar aos nossos ouvidos, reforçando o aprendizado de que as crianças estavam expostas a uma formação cultural que invalidava suas emoções e sentimentos. Quando a vida interior dessas crianças não é refletida de volta para elas, através de pais ou pessoas compreensíveis, que dão nomes aos seus sentimentos e ouvem-nas com o coração aberto, elas podem se fechar em si mesmas e agir de um modo que parece irracional e impossível de se lidar. Desde cedo, por exemplo, é possível perceber que elas são ensinadas a dar as costas ao que realmente acontece dentro delas: medo, desespero, depressão e solidão. Geralmente ouvem do mundo à sua volta “Afaste-se de emoções negativas, seja positivo, faça o melhor, seja útil”. Estes tipos de invocações e conselhos criam, dentro delas, um medo da sua própria sombra, tornando-as alienadas dos sentimentos mais profundos. Chega um momento em que elas mesmas não conseguem mais entender o que se passa no interior de si mesmas.
Vi, então, Naicha dar atenção à garotinha. Neste instante, coincidentemente, apareceu o Rickson, o garoto anterior, falando-lhe o seguinte:
- Fala para ela o que tu me falou.
Foi isso que a Naicha fez. Repetiu para a menina as mesmas perguntas e acolheu sua cabeça junto ao seu ombro. Repetiu também que a tristeza e a chateação dela eram bem-vindas. Ela chorou muito, bastante mesmo. A minha surpresa, porém, observando tudo aquilo, foi em relação ao menino Rickson, que começou a falar à garotinha nestes termos:
- Chora, chora porque faz bem. Eu chorei e me fez muito bem.
A cena acabou com as duas crianças tendo sido acolhidas em seus sentimentos e, após isso, saindo para brincar. Enquanto nos preparávamos para deixar o local e ir embora, Naicha abaixou a cabeça e pediu um minuto de atenção, dizendo o seguinte:
- Eu que tanto estudei sobre preparação emocional de crianças, vejo-me, agora, impelida a um novo aprendizado: ser original como elas. Estou me dando conta disso, de que me falta a experiência de ser verdadeiramente espontânea.
Neste instante, percebi que foi impossível a ela frear o pranto que, convulsivamente, emergiu, lavando todo o seu rosto. Não sei dizer por quanto tempo duraram aquelas lágrimas. No entanto, o alívio foi imediato.
Ela, então, finalizou falando:
- Eu confesso que durante esta última semana, a situação no ambiente em que eu trabalho foi bastante desafiador para mim. Mas graças ao aprendizado que tive com estas duas crianças, consegui chorar e libertar a dor que oprimia meu peito. E, sim, eu posso chorar e ser vulnerável.
Autor Tiago Bueno
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