O Nômade

 


O Nômade

 

Por onde eu começo? Bom... fui aluno medíocre e só fui começar realmente a me interessar por leitura quando saí da escola. Também não via perspectiva profissional alguma. Acabei indo trabalhar como funcionário numa empresa. Meu cargo era de auxiliar administrativo e acho que me admitiram mais por caridade do que por competência. 

 

 Naquela época, tentei três cursos superiores, deixando de frequentar cada um deles logo no início. Definitivamente, não conseguia me adaptar. Pensava que devia ter algo de terrivelmente errado comigo. Quando minha autoestima já estava por demais falida, busquei a religião e encontrei algo a que me agarrar. Porém, ali também enfrentei sérios conflitos. Eu sentia muita raiva, medo, culpa, desejos... mas ouvia a todo o tempo invocações e conselhos que me diziam que tudo aquilo que eu experimentava era algo ruim. Isso criava em mim um medo da minha própria sombra, o que me tornava alienado dos meus sentimentos mais profundos.

 

Em determinado momento, porém, depois de muito ter buscado me encaixar numa espécie de camisa de força, vi meus ideais desmoronarem, um após o outro, restando-me apenas a experiência de um buraco vazio e escuro.


E sentia horror de passar por isso. 


Nesse buraco escuro e vazio... enxerguei, pela primeira vez, um garoto todo sujo, machucado, que me xingava sem parar, dizendo o quanto me odiava. Meu primeiro sentimento foi de medo. Desfiz aquela imagem e procurei voltar para fora. 

 

A expressão que vi naquele garoto talvez quisesse revelar um lado agressivo e violento que era meu, mas que havia sido profundamente enterrado dentro de mim. E, enquanto eu adiava revê-lo e “enfrentá-lo”, via crescer minha raiva em relação a uma situação pela qual eu estava me defrontando. Decidi, então, voltar a rever o garoto. E lá se encontrava ele, o mesmo menino sujo, machucado, parecendo um cachorro acuado, pronto para me morder. Eu não conseguia ter nenhum tipo de conexão com ele. No entanto, após ouvir uma série de acusações da parte dele, eu apenas concordei e lhe disse algo inusitado para mim:

 

- Eu quero te dizer que o meu mais sincero interesse de estar aqui é te escutar, só isso. 

 

Neste instante, percebi um pouco mais de abertura da sua parte. Resolvi, então, arriscar e dizer o seguinte:

 

- Eu quero sentir a dor que você tá sentindo – falei.

 

Silêncio!

 

- Quer mesmo? – indagou ele, depois de algum momento.

 

- Sim, eu quero – afirmei.

 

O garoto olhou-me por alguns instantes e disparou:

 

- Então, me segue!

 

 Não preciso descrever com detalhes, mas entramos dentro de um lugar completamente escuro, parecendo uma espécie de caverna. Vi, nesse instante, ele mudar, de uma hora para outra, de um garoto raivoso, difícil, intocável, para revelar-se noutro alguém, necessitado, sozinho, com medo. Chorando, começou a falar-me:

 

       - É aqui onde eu vivo. Eu tenho medo da luz, tenho medo das pessoas, tenho medo de viver. Eu nunca saio daqui.

 

        Eu apenas o ouvia e, sem perceber, fui sendo tomado por um sentimento de pena, enquanto ele prosseguia:

 

      - Você não sabe o que é ser rejeitado da forma como eu fui. Você não sabe o que eu já passei.

 

      Aproximei-me ainda mais dele e, repentinamente, surgiu-me a vontade de ajudá-lo a sair dali. Neste momento estraguei tudo. Ele sentiu minha motivação e desapareceu. Não consegui mais voltar a vê-lo. Sentia-o, porém, à distância, toda vez que minha raiva aflorava.

      

            O tempo passou e, a partir daquele episódio, refleti que eu só seria realmente capaz de ajudá-lo, quando conseguisse desapegar da minha própria vontade de querer fazer isso. Isto me soava paradoxal! Mas, de fato, estava refletindo que eu precisava estar “mais aberto” para ouvi-lo, aceitando-o completamente do jeito que era.

 

   Abertura para se escutar 

 

               “O poeta inferior diz o que julga que deve sentir. O poeta médio diz o que decide sentir.  Dizer o que efetivamente se sente é tarefa para o poeta superior”. (Fernando Pessoa)

 

        “Abertura para me escutar”… passou a ser um objetivo, quase que um mantra para mim. Após o primeiro contato que tive com aquele “garoto”, não tardou muito para que outra oportunidade surgisse. Novamente minha raiva estava aflorada. No entanto, sem julgamento se aquilo que eu estava sentindo era certo ou errado, iniciei um novo diálogo com o “menino”. Perguntei a ele se o que ele estava sentindo era realmente raiva.

 

                  - Nômade, você está sentindo raiva?

 

                 Eu percebi que ao receber de volta o reflexo daquilo que eu estava sentindo, através de uma pergunta, meu coração se sentia ouvido. Estava realmente aberto a escutar minha própria dor.       

 

       - Sim, eu estou com muita raiva – foi a resposta que recebi.      

 

         A novidade surgiu de dentro outra vez. Eu estava pela segunda vez me des-identificando do meu próprio sofrimento.       

 

         - Você está com raiva por ter se sentido desvalorizado naquela situação. Foi isso? – perguntei.        

 

            - Sim, a pessoa não me deu o devido valor e consideração – falou a minha dor.     

 

          - Quer dizer que você necessita ser valorizado, é isso? Por isso que você está sentindo tanta raiva? – perguntei.        

 

           - Sim, eu necessito ser valorizado – respondeu.       

 

           Intuitivamente, eu estava fazendo um processo de interiorização: assumindo a responsabilidade pela emoção que eu sentia, examinando-a e procurando segui-la de volta à sua fonte. Neste processo de interiorização, eu não procurava mais a causa da minha raiva no mundo externo. Havia ouvido meu sentimento, a raiva, e queria identificar a causa dentro de mim, minha necessidade de ser valorizado. Agora, gostaria de saber como eu poderia atender minha própria necessidade? Eu nunca havia feito isso conscientemente. Arrisquei e disse-lhe:

 

                       - Será que eu poderia, de alguma forma, lhe dar essa valorização que você está necessitando? – perguntei.     

 

            A resposta, porém, veio surpreendente e ao mesmo tempo desafiadora:  

 

            - Ah, quer dizer que agora você está me dando atenção? Resolveu ser bonzinho, é isso? – questionou-me a dor.

 

          Nesse instante, surpreendentemente, minha memória levou-me de volta ao passado. Enxerguei-me na beira da praia, chorando, culpado, desrespeitado por mim mesmo. Havia deixado o emprego da cidade para ir aproveitar o verão na praia. Sentimentos de culpa, uma dor profunda e remorso arrebataram-me. Lágrimas pesadas rolaram de meus olhos.

 

                    - Idiota! Por que você fez isso? Tanta gente confiou em você – dizia minha autocrítica destrutiva. 

 

                    Para mim, no entanto, foi fácil esquecer a situação, afinal havia muitos recursos disponíveis para eu estar cada vez menos preparado para lidar com o sofrimento da minha própria condição humana. Bastava repartir dos mesmos vícios e jogos dos sentidos que anestesiavam a juventude de minha época. Havia sempre uma forma de se refugiar da nossa dor humana e insatisfação. 

 

                   Assim, procurei esquecer aquilo e “viver”. Todavia, o fato é que essa "persona non grata" continuou sua jornada dentro de mim. Sim, vivia abafado. Levava uma vida paralela, uma existência obscura, sendo ignorado, resistido, rejeitado por mim mesmo. O universo, no entanto, daria um jeito de fazer com que eu voltasse minha atenção novamente para o meu interior.

 

                     Eu sinceramente desconhecia a lógica de que estamos aqui na Terra com a responsabilidade de curar a criança ferida que trazemos dentro de nós. E isso me custaria uma aventura muitas vezes solitária, uma convivência dolorosa com uma personalidade sombria e obscura dentro de mim mesmo. Eu precisava olhar para esse “estranho” que me habitava tão intimamente, o que significava tornar o meu lado destrutivo consciente e explorar seu real significado e propósito mais profundo.

 

                    Embora a vida possa demandar nosso auxílio a outros, a primeira responsabilidade é com a gente mesmo. Caso esqueçamos esse ensinamento, nossa criança interior fará o favor de nos lembrar. A dor dela irá irradiar de tal maneira que irá atrair pessoas ou situações que tocarão as necessidades não atendidas em nosso interior. Por favor, permita-me explicar com um exemplo.

 

        Minha mãe convidou-me para o seu aniversário. Sabia da importância de minha participação para ela no evento. Seria comemorado em uma tarde de domingo. Entretanto, acabei me desorganizando e chegando ao final da festa, apenas para ajudar a recolher o que sobrou. Senti-me muito mal com aquele episódio. Logo surgiu o sentimento de culpa e remorso pelo acontecido. Procurei então analisar a situação: Por que motivos criei aquilo para mim? A resposta não demorou.

 

         Minha criança interior, por trazer sentimentos de culpa dentro de si, criou aquela “cena” para poder se manifestar, de modo a despertar minha atenção para a necessidade de começar a trabalhar com ela o autoperdão. Talvez você possa questionar se isso não seria criação da minha própria cabeça. Todavia, uma certeza dentro de mim dizia que não, e isso foi fundamental para que eu confiasse na intuição. Absolutamente nada na vida acontece por acaso. Todos os acontecimentos possuem um propósito superior de nos remeter a nós mesmos, a fim de curar ou desencadear um nível maior de percepção e entendimento sobre nosso próprio ser interior. Quando estamos inseridos num processo de autoconhecimento, o menor fato ganha significado, ainda mais se ele gerar emoções em nós. Esta é a linguagem utilizada pela nossa criança interior. Se for possível, por favor, pare um pouco e pense alguns instantes. Qual é a situação que está permitindo a sua criança interior falar com você no momento?

 

A Revelação

 

 “Vale mais a pena ver uma coisa sempre pela primeira vez que conhecê-la, porque conhecer é como nunca ter visto pela primeira vez, e nunca ter visto pela primeira vez é só ter ouvido contar”. (Fernando Pessoa)

 

      Continuei a observar e escutar as emoções que minha criança interior manifestava. E foi assim que cada vez mais vi aparecer a raiva e também as mesmas necessidades de me sentir valorizado e respeitado. Percebi que eu apenas começava a tocar na pontinha visível de um enorme iceberg. Minha dor era muito maior do que imaginava. Minha necessidade recorrente de ser valorizado deixou claro que minha criança interior acreditava profundamente que não tinha valor. Onde estava a origem daquela tão baixa autoestima?

 

              Toda vez que a raiva se repetia, procurava deixar claro a ela (criança interior) que eu a escutava e que queria aprender a amá-la e aceitá-la da forma como ela era. Isto me trazia alívio. Por isso, logo fui aprendendo que a autoaceitação era uma chave importante nesse processo. Toda vez que sentia a minha necessidade mais profunda, eu passei a estar ali presente, sem ter que fazer nada. Eu estava aprendendo a suportar minha condição humana. Isto me possibilitou conquistar ainda mais a confiança da minha criança interior, pois a permitia ser capaz de conviver e suportar o sofrimento.

 

                Nessa época, aprimorei minha capacidade de recebê-la como a um ouvinte interessado, aberto. Foi então que ela abriu seu coração e começou a expressar-se mais livremente. Pedi, então, que me levasse à origem da sua dor. Assim, durante uma viagem que fiz, minha criança interior levou-me em uma jornada de volta aos anos iniciais de minha vida.          

 

                Revi toda minha adolescência. Perdoei e pedi desculpas a muita gente, mas, principalmente, perdoei a mim mesmo pelos erros cometidos. Cheguei, então, à primeira série do ensino fundamental. Recordo-me que havia reprovado lá. Por esta razão, senti a necessidade de seguir adiante e voltar ainda mais. A crença de não ter valor era anterior a isso. Aprofundei-me mais ainda! Repentinamente, então, cheguei à barriga de minha mãe. Aqui, o susto, a sensação de pânico, o medo, o choque, um tremor dominou-me completamente. Meu corpo sentia tudo o que minha mãe sentia. O que aconteceu com minha mãe durante minha gestação? – indaguei. Afinal, ela sempre havia me dito que eu e meu irmão éramos os bebês mais esperados do mundo.

 

                   Percebi que minha criança interior queria revelar-me algo muito maior. Será que a origem da sua baixa autoestima estava ali? Talvez. Na semana seguinte fui em busca de minha mãe.

 

                   Encontrando-a, pedi que me contasse tudo sobre minha gestação. Ela iniciou com a pergunta:

 

                   - Realmente quer saber tudo, meu filho? Até as partes ruins?

 

          - Principalmente, mãe – respondi.

 

          Resumindo, minha mãe sofreu uma decepção (traição) antes de ficar grávida. Meu pai quando soube do segundo bebê, pediu para retirá-lo. O casamento estava de mal a pior. Neste ínterim, a barriga de minha mãe “caiu” e três hérnias se formaram, causando grande risco ao bebê. Sua saúde emocional estava abalada. Sentimentos como medo, insegurança, abandono e rejeição dominavam-lhe o espírito. Confessou-me também que acreditava que nasceria um bebê com deficiência mental. Por último, foi ao hospital, sozinha, dar à luz. 

 

              Após todo esse relato, senti-me aliviado. Sim, não era minha culpa toda a problemática de minha existência. É sabido que o bebê absorve em seu corpo emocional todas as emoções vividas pelos seus pais ao longo da gestação e dos primeiros anos de vida. Agora, ganhava cada vez mais compreensão e entendimento acerca de mim mesmo. A criança interior adquiriu confiança em mim e começou a revelar coisas mais profundas. Meu próximo passo foi falar com meu pai e buscar compreendê-lo.

 

Conversando com meu pai

 

             “Quem me dera ouvir de alguém a voz humana que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; Que contasse, não uma violência, mas uma covardia. Não, são todos o ideal, se os ouço e me falam. Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? Ó príncipes, meus irmãos”. (Fernando Pessoa)

 

    Iniciei a conversa perguntando a meu Pai como era meu avô. Após conhecer como foi sua infância e criação, entendi que ele trazia crenças profundamente arraigadas do círculo masculino ao qual havia sido criado.                                

 

                           Naquela época, o machismo era algo culturalmente “aceito” e, portanto, não podia ser questionado seu valor. O homem tinha todo o direito a ter relações extraconjugais. A mulher, absolutamente! Porém, buscando explorar mais a raiz daquela atitude de meu pai, ele revelou-me um profundo sentimento de vazio, o qual, imaginei, tentava suprir por meio de relacionamentos. Sim, ele também é um anjo. Apenas, assim como eu, meu pai se identificava com as necessidades e dores da sua criança interior, buscando provê-las da forma como aprendeu. 

 

 Parabenize-se, por favor!

 

         “O caminho para cima e o caminho para baixo são um único caminho.”  (Heráclito)

 

          Após todas essas descobertas, fui tomado por um grande alívio e sentimento de leveza. Isto fez com que a criança interior fosse me revelando outras coisas importantes, à medida que me esforçava para amá-la e aceitá-la da forma como ela era.

 

      Aprendi, então, que minha alma falava através das emoções. E, ao invés de considerá-las como algo ruim e buscar superá-las, eu podia ouvi-las. E foi assim que pude ir descobrindo quais eram as minhas próprias e verdadeiras necessidades, de forma a atuar apoiando-se nesta linguagem para criar as mudanças que minha alma desejava realizar. Minha criança interior estava profundamente identificada com o corpo. Por isso, ela buscava o prazer físico a qualquer custo quando não se sentia amada. Assim, passei a fazer umas coisas bobas, como por exemplo, me elogiar toda vez que me via no espelho. Percebi que tudo o que eu pensava ou falava a meu próprio respeito, atingia o âmago da minha criança interior. Cuidei, também, para valorizar todo e qualquer ato do meu dia a dia, incluindo até mesmo o fato de escrever cartas de amor para mim mesmo. Ridículo, mas foi dando resultado.  Acredito que esses pequenos experimentos que fiz, rapidamente abriram novas portas de expressão à minha criança interior. 

 

Na esteira desses acontecimentos, numa quarta-feira, quando eu estava trabalhando numa ONG, me encontrava ansioso, angustiado e inquieto. Então voltei minha atenção para a criança dentro de mim e procurei enxergá-la. Ela estava virada e com o rosto emburrado. Perguntei se ela estava ansiosa ou triste. Nem me olhou. Apenas disse irritada:

 

                - Como você quer que eu esteja? Eu quero me divertir! Não aguento mais ficar aqui.

 

                - Está bem – respondi. Farei o possível pra gente se divertir.

 

                Eu falei com ela dessa forma na quarta-feira. Na quinta-feira, apareceu na ONG uma mulher. Sua aparência era jovem, mas ao mesmo tempo havia algo nela que era misterioso, ela parecia uma anciã. Seu nome era Naicha e foi lá para adquirir um material que vendíamos. Disse-me que o usaria em um curso sobre Inteligência Emocional que estaria ministrando dali a duas semanas, num município perto de onde estávamos. Demonstrei meu interesse em participar do curso, porém expliquei que me encontrava num período de economia... Enfim! Sexta-feira à noite, eu recebo uma ligação. Do outro lado da linha encontrava-se a secretária da Naicha para me dizer que ela havia conseguido uma vaga para eu participar do referido curso com tudo pago. Minha criança pulava dentro do meu peito. Que surpresas não estariam me aguardando?

 

A Catarse

 

“Não importa que tenham demolido. A gente continua morando na velha casa em que nasceu.” (Mário Quintana)

 

       Posso dizer que nos três primeiros dias do curso, vi-me como um dos personagens do filme “Sociedade dos Poetas Mortos”. Tivemos, eu e mais 20 pessoas, uma diversidade de atividades e dinâmicas em grupo que tudo parecia lembrar-me aquelas palavras “Carpe diem”, aproveite o dia! Nunca havia vivenciado algo igual. Porém, o principal estava por vir. Descobri que todas as atividades eram apenas uma preparação para o que iríamos vivenciar no último dia. Sim, o último dia! Algo realmente arrebatador aconteceu comigo.

 

       Não poderei contar em detalhes a atividade feita pela profissional e sua equipe, porém descrevo o que vivi. Apesar de todas as descobertas feitas com minha criança interior, ela ainda estava longe de se curar. Melhorou muito, é verdade. Todavia, algo se encontrava profundamente enraizado nela. Naquele momento, começamos a última atividade. Digo-lhe que pude ver e sentir minha mãe no momento do parto. Ao mesmo tempo, começou a subir em meu peito uma amarga dor retraída com choro. E as palavras que vinham em minha mente eram:

 

               - Eu quero morrer, me tira daqui! Eu quero morrer, me tira daqui. Eu quero morrer... Tira-me daqui.

 

                 Comecei a chorar e dizer muito baixinho o que me vinha. De repente minha boca entortou. Eu mal conseguia falar. Fazia um esforço para dizer aquilo. Sentia uma espécie de dor reprimida naquelas palavras que brotavam: “Eu quero morrer, me tira daqui. Eu quero morrer...”. Foi então que, enquanto eu repetia e chorava, a profissional fez sua intervenção como uma verdadeira cirurgiã, dizendo-me ao pé do ouvido:

 

             - Reprograme agora. Diga “Eu quero viver”.

 

               Com muito custo, comecei lentamente a forçar as palavras “eu quero viver, eu quero viver, eu quero viver”. Algo inusitado aconteceu. Meu coração semelhou-se, naquele instante, a uma gigantesca represa estourando o ferrolho que o impedia de fluir. Não conseguia ocultar o assombro que se apoderara de mim. Gritava, aos prantos. Chorava convulsivamente. As palavras tomaram uma dimensão de destemor e um sentimento de empoderamento, que eu jamais havia experimentado, invadiu-me completamente.

 

               - Eu quero viver, eu quero viver, eu quero viver nesse mundo. Eu vou viver! É agora que eu irei viver de verdade nesse mundo – gritava repetidamente chorando.

 

            Logo após a catarse inicial, continuei chorando. Só que agora parecia ter sido dominado por uma força divina e um novo sentimento de amor que, penetrando minha consciência, repetia constantemente: “Eu sou como sou e sou amado pelo que sou. Eu sou como sou e sou amado pelo que sou. Eu sou como sou e sou amado pelo que sou”. Sentia que havia renascido. Algo muito grande havia sido libertado de mim. Era como se uma crença limitante houvesse subido à consciência e sido reprogramada, abrindo espaço para a manifestação de minha verdadeira natureza. E agora, como seria viver com a minha criança interior? Estaria ela ainda com a mesma dor? 

 

            Minha criança interior definitivamente saíra da caverna. Ela aparecia, agora, quase sempre zangada, com os punhos cerrados e as bochechas vermelhas de indignação. Porém, ao invés de reprimi-la ou querer curá-la, passei a dar-lhe permissão para ser ela mesma. Afinal de contas, foi ela quem me ensinou a tratar com compreensão a dor que em mim havia sido acumulada e a respeitar a noite escura da minha alma. Através dela, também pude aprender que era preciso estender a mão para a minha própria escuridão e considerá-la como uma presença viável, dizendo-lhe: “Você é boa como é; eu a compreendo. Eu não luto contra você; eu lhe dou um lugar dentro de mim. Você é um lembrete dos velhos tempos e eu aprendi muito com essas experiências. E é somente devido a estes altos e baixos que experimentei com você, que vi amadurecer uma sabedoria que é viva em meu interior, me ensinando a “não me condenar” e a “não lutar mais contra mim mesmo”. Com isso, ganhei um espaço mais confortável para ser imperfeito e muitas vezes irresponsável. Quando eu não funcionava como gostaria, dizia: “Tu está fazendo o teu melhor, segue adiante que eu estou aqui para te apoiar.” Este sentimento de “não me condenar mais”, “de não lutar contra mim mesmo”, devido a minha imperfeição, foi uma conquista, conseguida não por ser espiritualmente virtuoso (não acreditava mais nisso), mas por me dispor a mostrar-me tal como eu era, vulnerável, e por assumir a responsabilidade por isto. E percebi também que quando desenvolvi esta habilidade de deixar ir aquela pessoa que eu achava que deveria ser, para ficar com quem eu realmente era, ganhei a recompensa de me tratar como alguém que é digno e merecedor, mesmo sendo imperfeito e muitas vezes irresponsável.

 

Eu busquei beber no rio do tempo, é claro

 

Mas enquanto tomava da sua água

 

Via seu leito arenoso e percebia como era raso

 

Solitário, tímido, envergonhado

 

Nunca me adaptava à ordem existente

 

Eu era movido pelo Espírito do Vale

 

E fui feito por aquilo de que tinha sede

 

A vida me empurrava a encontrar meu próprio caminho

 

E foi no auge de meu desespero

 

Bem quando não via futuro, saída ou solução

 

Que conheci a verdadeira autorização

 

O Espírito do Vale de mim se apossou

 

E em mim renasceu a energia do coração

 

Agora já não era mais tímido nem envergonhado

 

Comecei a gritar aos ventos meu conhecimento interior

 

E honrar minhas verdadeiras inclinações

 

E aquilo que fazia de mim algo tão estranho

 

Tão diferente

 

Tão inadequado

 

Passou a ser o meu lugar único

 

Meu papel único

 

E foi neste local exclusivo

 

Cumprindo meu papel exclusivo

 

Que a corrente rala do rio deslizou

 

Foi embora

 

A eternidade ficou

 

Minha sede então finalmente foi saciada

 

Encontrou dentro da minha estranheza

 

Dentro da minha diferença e inadequação

 

Quem Eu realmente Sou.

 

Autor: Tiago Bueno

@pensar_autentico

tbcsol@gmail.com

Educação do Pensamento Autêntico

Spotify Vento da Liberdade

(51) 999892886

Nenhum comentário:

Postar um comentário