A função de um
facilitador de grupo em escuta empática é ser ele mesmo. Tanto quanto conseguir
ser ele mesmo - contraditório, triste, alegre, louco, aberto, distinto,
inseguro e capaz de compartilhar - torna-se, de certa forma, um diapasão que
encontra ressonância dessas características em todos os participantes do grupo.
É bom também que o facilitador se mantenha livre, ou seja, que não vista nenhum
papel de terapeuta, de modo a ter como único guia a sua própria intuição.
O processo inicia-se com o facilitador aceitando-se como se é e permitindo que as demais pessoas sejam quem elas são. Ao iniciar um grupo com esta premissa, os resultados geralmente são valiosos. E isso acontece quando o facilitador sabe o que é ser um ser humano na Terra. Sabe o que é vivenciar emoções profundas de dúvida, medo, tristeza e raiva. Sabe que também está aprendendo a ter compaixão por si e isto significa que o Seu eu mais elevado brilha no momento em que ele acolhe a sua parte mais escura. Por “parte mais escura” quero dizer vergonha, medo, dúvida, depressão... em resumo, a escuridão que existe na sua alma como resultado de experiências dolorosas não resolvidas.
O facilitador, então, pode abrir sua fala trazendo informações simples de como ele se encontra, internamente. Pode iniciar identificando, por exemplo, um sentimento de preocupação: “Neste momento eu me sinto preocupado. Tenho vontade de conduzir o grupo, de controlá-lo. Sinto medo de não ter controle, porque não acredito que eu seja bom o suficiente naquilo que estou fazendo. Me sinto inseguro também.” Ao abrir sua fala deste modo, revelando seus sentimentos e sua vulnerabilidade, ele abre o “campo” para que os demais participantes também se sintam a vontade para ser quem eles são, autênticos.
Ao aprender a se libertar do próprio julgamento, aceitando-se humano, inacabado e imperfeito, o facilitador abre um espaço de aprendizagem para todos, um espaço terapêutico, um espaço de não-julgamento. Os participantes ingressam num caminho de compromisso com os seus corações, ao sentirem-se seguros para aceitar os sentimentos que mais lhes causam vergonha e medo. São justamente estes sentimentos que estão a bloquear o caminho interior que permite acesso à força e sabedoria inata que cada um trás consigo.
O campo de
aprendizagem deste grupo não tem como objetivo a mudança ou transformação
destes sentimentos, mas a aceitação e acolhimento dos mesmos. Trata-se de um
local onde as pessoas se encontram, compartilham seus sentimentos mais
profundos, suas dores e anseios, criando uma sensação de serem aceitas e
estarem unidas. Se combinarmos, neste espaço, a simplicidade e a franqueza,
onde nada precisa ser escondido atrás de portas trancadas, certamente o melhor dentro
de cada um emergirá. Isto só não acontece quando reprimimos e não aceitamos as emoções.
Essa é a forma com que as tornamos sombrias e incontroláveis.
Nosso ser mais profundo
nos fala principalmente através dos nossos sentimentos, e é justamente no momento
em que reprimimos esses sentimentos que perdemos
a conexão com nosso mundo interior e com a linguagem utilizada por ele. O motivo
disto é que existe uma espécie de poder na escuridão, capaz de dar a impressão de
que emoções sombrias como medo, raiva ou tristeza devem ser evitadas. A sociedade
muitas vezes lhe pede que faça isto. De todos os lados você recebe conselhos e invocações
para não ficar triste, para não chorar, para não sentir medo, raiva ou mágoa. Estes
tipos de invocações e conselhos acabam por gerar um medo da sua própria sombra,
o que o torna alienado das emoções mais profundas. E você poderá tentar viver obedecendo
as regras da sociedade, trabalhando duro, sendo uma pessoa “boa”, mas, com isto
você perde contato com quem realmente é e, no fim, se torna solitário e frustrado,
e sente que sua vida está carente de alegria e inspiração. Você pensa “Por que não
consigo ouvir a linguagem do meu ser?” e talvez comece a ter emoções cada vez mais
sombrias de frustração e depressão. Quando se sente assim, é porque seu ser está
batendo à sua porta. Esta escuridão, na verdade, traz poder, porque nela estão escondidas
as emoções que uma vez você reprimiu. É por isto que é tão importante enfrentar
a escuridão interior, olhar diretamente para as emoções negativas que estão lá.
Ao acolher e
aceitar estas emoções na luz da sua consciência, você está se transformando,
está se libertando das suas máscaras, fingimentos e admitindo, sem disfarces, a
própria vulnerabilidade. Você está mudando um padrão de luta contra aquilo que
mais lhe causa dor e vergonha em sua vida. Certa vez, um participante de um
grupo declarou: “Hoje eu pedi autoconfiança e amor próprio, pra que eu
conseguisse reconhecer as coisas que são boas e fazer as coisas que são boas
pra mim, pensando em mim mesmo, e não olhando ou pensando em outra pessoa, como
que querendo a aprovação da outra pessoa e tal. E fui percebendo que o fato de
vir aqui e conseguir falar de mim para pessoas estranhas já é um sinal de amor
próprio... sabe... eu falei sobre algo que normalmente eu me sentiria um
ridículo, ao falar disso pra alguém que eu não conheço. E eu fiz isso sem ficar
me questionando, sem ficar pensando se eu estava parecendo um fraco ou não.
Depois que eu fiz isso, fiquei pensando: isso é uma coisa positiva. Não fiquei
me julgando, enquanto eu tava falando sobre algo que é íntimo, né. Então isso
me deixou bastante feliz. Eu acho que quando a gente consegue ouvir outra
pessoa com empatia e compaixão, a gente acaba criando essa empatia com a
gente.”
No depoimento acima, vemos a pessoa desenvolvendo a habilidade de voltar-se para dentro de si com a ousadia de se desapegar de seus próprios julgamentos, de sua crítica. Disse ele: “eu falei sobre algo que normalmente eu me sentiria um ridículo. E eu fiz isso sem ficar me questionando, sem ficar pensando se eu estava parecendo um fraco ou não”. Ao reconhecer sua vulnerabilidade, aceitando expor ela, uma parte de si saiu da escuridão. Ao acolher verdadeiramente sua própria sombra, conseguiu construir uma ponte entre ele e as outras pessoas. Isto cria naturalmente compaixão e compreensão em nossos corações. E essa foi sua fala final: “Depois que eu fiz isso, fiquei pensando: isso é uma coisa positiva. Não fiquei me julgando, enquanto eu tava falando sobre algo que é íntimo, né. Então isso me deixou bastante feliz. Eu acho que quando a gente consegue ouvir outra pessoa com empatia e compaixão, a gente acaba criando essa empatia com a gente.”
Ao aceitar-se
exatamente do jeito que você é, a transformação ocorre naturalmente, sem que
você tenha que se esforçar para isto. O processo é natural, orgânico. A única
coisa que lhe é pedido é um compromisso com a compreensão, de modo a acolher
aquilo que precisa vir à luz para ser liberado. Quando resistimos e julgamos os
nossos sentimentos, eles continuam a bater na porta do nosso coração e podem se
tornar em verdadeiros demônios. No entanto, não passam de energias que vêm a
você em busca de cura. São como criancinhas que estão abandonadas. Você vai
precisar dedicar tempo de intimidade com elas, a fim de resgatar estes
sentimentos da zona de vulnerabilidade, onde residem o abandono, a solidão, a culpa,
o medo, a vergonha, a tristeza, etc.
“Mas eu já estou
fazendo isto. Já estou chorando faz um ano, ao enfrentar minha tristeza, e ela
não diminui”, você pode
pensar. Se ela ainda está retornando, é provável que exista alguma resistência
com relação a ela. Talvez você ache que já deveria estar livre disso, que essa
dor não deveria mais estar presente. Essa resistência sutil mantém seus
sentimentos à distância e muitas vezes enterrados dentro de você.
É bom o facilitador saber que guiar
um grupo com este propósito requer uma habilidade genuína, e não teórica, com a
empatia. Significa estar consciente de que as pessoas são, muitas vezes, seres
humanos feridos, exatamente como você, e que jogar luz nas sombras pode ser
assustador para muita gente. Por isto, se faz necessária paciência e muita
delicadeza. É como comer um mingau pelas beiradas.
Autor: Tiago Bueno
51-998177893
Deve ser incrível participar de um grupo assim. Poder falar francamente e ser aceito mesmo assim...
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