#N°129 – Aprendendo a escutar

 🌾 Vento da Liberdade


#N°129 – Aprendendo a escutar


Reflexões diárias – 6/5/2021


Recentemente li uma publicação no instagram, onde a pessoa citava uma frase de um autor. Pelo fato de eu conhecer a pessoa que fazia aquela publicação, conhecia também o contexto emocional e o conflito existencial que envolvia aquele assunto publicado. Isso me fez pensar que, mesmo as publicações das redes sociais, merecem receber uma “escuta compreensiva”. Porém, antes que isso acontecesse, outra pessoa foi mais rápida e logo se posicionou, utilizando uma avaliação, dizendo que aquilo que havia sido dito não era o correto, etc. Ao ler aquilo, pensei: “Se essa pessoa conhecesse o contexto que envolve essa publicação, talvez daria um passo atrás e não escreveria o que escreveu”. 


Em nossa cultura, acredito que aprendemos rapidamente a observar um fato e a misturar nele a nossa interpretação, avaliando se aquilo está certo ou errado. Isso prejudica grandemente a nossa comunicação, bem como o desenvolvimento das pessoas. Quando misturamos aquilo que observamos com a nossa interpretação, não estamos mais vendo a realidade. Os indianos costumam dar a esse fenômeno o nome de “maya”, ou seja, ilusão.

 A interpretação é uma habilidade da percepção, que só existe com base no passado. Ela é a principal responsável por manter vivo o sistema de pensamento do ego. O ego não é ruim nem bom. Ele é necessário, porém não pode ser o dominador nem o comandante da nossa percepção. Porém, quando ele se torna o comandante da nossa percepção, não conseguimos simplesmente observar os fatos. Precisamos jogar os fatos para um lado ou para o outro, dizendo se eles estão certos ou errados. Isso acontece porque o ego acha que sabe. Seu saber, no entanto, baseia-se sempre no passado, nos livros que leu ou nas experiências que viveu.

Vamos a um exemplo de interpretação através de um diálogo entre a pessoa X e a pessoa Y:

- Quero sair da casa do meu pai. Me sinto incomodada com o fato dele beber – diz a pessoa X.

- Voce deve estar projetando o seu passado nele e é isto o que deve estar te incomodando, porque você também bebia – responde a pessoa Y.

Duplamente incomodada agora, a pessoa X redargüiu:

- Será que você pode deixar suas teorias nos livros e simplesmente me ouvir sem me interpretar?


Acredito que a habilidade de interpretação é útil, mas deve ser utilizada cuidadosamente. Antes de usá-la, acho necessário consultarmos a nossa intuição, perguntando a ela o que a outra pessoa realmente necessita no momento. 

Agora, falando um pouco sobre a habilidade de observação, acredito que ela nos ajuda a compreender a realidade de uma maneira diferente, já que não diz, de antemão, o que é a realidade. Ela realmente não está interessada em como o passado vê o presente. Em outras palavras, ela não dá respostas. Ela descreve o fato e pergunta se é isso mesmo. Essa habilidade, pelo que sei, é utilizada dentro da delegacia, por exemplo. Lá se utiliza uma linguagem descritiva para os fatos, pois isso permite a imparcialidade.

Vamos a um exemplo do uso da observação através do diálogo que usamos anteriormente entre a pessoa X e a pessoa Y:

- Quero sair da casa do meu pai. Me sinto incomodada com o fato dele beber – diz a pessoa X.

- Eu ouvi você dizer que deseja sair da casa do seu pai, pois se sente incomodada com o fato dele beber. Foi isso mesmo que você disse? – indagou a pessoa Y.

Sentindo-se ouvida, a pessoa X abre-se mais ainda:

- Sim, eu não quero mais viver num ambiente com bebida alcoólica. Isso já me fez muito mal. Não consigo ver meu pai se afundando na bebida e não poder ajudá-lo.

Percebendo que a pessoa X conseguiu trazer mais de si para fora, a pessoa Y continua a oferecer uma simples observação:

- Eu estou percebendo que é muito ruim para você ver o seu pai bebendo e não poder ajudá-lo. E também que a bebida já lhe fez muito mal e que você não quer mais viver num ambiente com bebida alcoólica – diz a pessoa Y.

- Sim, eu estou pensando em ir morar com meu namorado, sabe. Ele não bebe e me apóia em meus projetos. É uma pessoa que eu confio...

Num diálogo desse tipo, cria-se um espaço de segurança onde a pessoa sabe que poderá se expressar sem ser interpretada nem julgada. Em nossa sociedade e cultura, porém, não é difícil conhecer pessoas que possuem dificuldade de expressão, devido ao medo que sentem de serem julgadas e interpretadas. Muitas delas somatizam no corpo as expressões que deixam de verbalizar. Eu recomendo a leitura das seguintes obras para aprofundamento do tema: “Pedagogia do Oprimido”, do pensador Paulo Freire, “Comunicação Não Violenta”, de Marshall Rosenberg e “Tornar-se Pessoa”, de Carl Rogers.

Até breve!

🌟Autor: Tiago Bueno🌾

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