#N°152 – A invalidação dos sentimentos

  

🌾 Vento da Liberdade


#N°152 – A invalidação dos sentimentos


Reflexões diárias – 29/1/2022


🌟 Continuando com minhas pesquisas sobre o uso da empatia em sala de aula, eu e minha colega Naicha fomos realizar uma observação de campo junto à entrada de uma escola da rede pública, na periferia de Porto Alegre. Nosso objetivo era, ora incidir uma visão crítica, observadora, diretamente sobre o desenvolvimento emocional das crianças, ora o fazer através de diálogos informais com pais, educadores e as próprias crianças. Peço licença aqui para descrever como foi o procedimento.



Ao chegarmos lá, Naicha começou a trazer a seguinte reflexão:



- Note as novas oportunidades de aprendizado em potencial que se apresentam aqui. Estão parados à nossa esquerda um garotinho, por volta dos 8 anos de idade, com a sua mãe. Nós iremos investigar a respeito da área das emoções, que é uma área vital para qualquer ser humano que deseja seu crescimento em direção à liberdade e à integridade. Um professor, que trabalha diretamente com o desenvolvimento do ser humano, deve procurar saber da importância das emoções: que não devemos reprimi-las, que devemos chegar a um acordo com elas, que finalmente devemos liberá-las. Mas nem sempre está claro como isso realmente funciona. Inclusive existe uma semelhança notável entre a forma como lidamos com as nossas emoções e a forma com que lidamos com as nossas crianças.



A mãe que estava ao nosso lado começou, então, a conversar com a criança. Prestávamos atenção ao diálogo, enquanto eu ia registrando num caderno de notas as coisas mais aparentemente pouco importantes: a maneira de conversar; sua forma de ser; seu comportamento; as expressões; a linguagem, suas palavras, sua sintaxe, que não é o mesmo que sua pronúncia defeituosa, mas a forma de construir seu pensamento.



 - De novo não! – começou dizendo ela. Olha, Joaquim, você já é grande, não é mais um bebê. Não se altere toda vez que lhe derem um “gelo”. Deixe isso pra lá. Procure outro amigo. Vá ler um livro ou brincar de outra coisa.



- Mas eu fiquei triste, mãe. Por que me cortaram do futebol? – retrucou o garoto.



A mãe do menino, parecendo um pouco impaciente, disse-lhe: 



- É, mas já é hora de você começar a encarar essas situações de modo diferente. As pessoas nem sempre vão lhe agradar. Quem sabe você começa a ficar feliz e agradecer pelo que tem, pois muita criança por aí gostaria de ter a metade das coisas que você possui – finalizou ela. 



Nós acompanhávamos o diálogo à pouca distância. Indiscutivelmente, aquele instante não comportava minha avaliação. Meu papel era o de um observador compreensivo, que deveria redigir um pequeno relatório, cujo conteúdo seria discutido posteriormente. Esperei pela Naicha e ela não tardou em falar-me ao pé do ouvido:



- Note que esta mãe, por maior boa vontade que tenha, pode ter acabado de derrubar a autoestima do seu filho. 



- Porquê? – perguntei.



- Pelo simples fato de dizer ao seu filho como ele deve se sentir. 



- Isso seria suficiente para derrubar a autoestima da criança? – tornei a indagar.



- Isso, em geral, só leva a criança a desconfiar do que sente, o que a deixa insegura e a faz perder a autoestima. Pode parecer simples e até não ser nada demais para uma mente adulta. No entanto, para uma criança pode ser a devastação total. Estas pequenas invalidações do que ela sente constroem e solidificam a crença de que ela está errada. O clima constante de não-aceitação da sua individualidade afeta a criança como um choque pequeno mas constante, que frequentemente deixa uma marca mais forte que uma única experiência chocante e traumática. Assim, ela cresce e se torna num adulto, em termos da sua fisicalidade. Cresce também intelectualmente, mas lá dentro, como pano de fundo em seu inconsciente, mora aquela pequena criança que, por vezes inúmeras, recebeu a invalidação dos seus sentimentos. O nome dessa criança é medo. Medo de estar errada por sentir o que sente e, por conseguinte, de expressar quem realmente é, pois vive na negação de si mesma. Isto faz com que os indivíduos cresçam sentindo-se isolados da vida, pois estes sentimentos e emoções, ao invés de desaparecerem, acabam por ficar soterrados, causando angústia e sofrimento. As crianças, em grande parte, toda vez que ouvem coisas do tipo: “quem sabe você começa a ficar feliz e agradecer pelo que tem”, como ouvimos na fala dessa mãe, aprendem a isolar o que se passa dentro de si por vergonha de estarem erradas.



- Seria tanto assim? – questionei.



- Pois é, estamos investigando o pensar do povo. E queremos descobrir como podemos conseguir tocar uma criança com sucesso, ou então como podemos criar uma conexão com aquilo que a criança está experienciando: os sentimentos e emoções que provocam o comportamento exterior. E estamos descobrindo que se dissermos à criança que ela tem o direito de sentir sua tristeza, sua raiva, sua mágoa, etc, e que há formas diferentes de expressar o que sente, ela fica com o caráter e a autoestima intactos. E fica sabendo, ainda, que tem um adulto compreensivo do seu lado para ajudá-la a deixar de se sentir arrasada e encontrar uma solução.



Até breve!


🌟Autor: Tiago Bueno🌾


✨Blog https://educarpensamentoautentico.blogspot.com


✨Acesse os áudios e meditações do “Vento da Liberdade” pelo Spotify, em:

 https://open.spotify.com/show/2bRvh9ErBD1UVaKdZHo7Y0?si=QQ-jr6QpSNq0kopxA2w-hQ


🌟Grupo “Vento da Liberdade” do whatsapp


https://chat.whatsapp.com/Keld8g5JK1pB6Q7vnfR4cC


✨Vídeo sobre Comunicação Não-Violenta em:

https://youtu.be/wD-GZkGO9xUl



Nenhum comentário:

Postar um comentário