🌾 Vento da Liberdade
#N°153 – Produção de pesquisa na educação
Reflexões diárias – 30/1/2022
🌟 Este texto é dirigido a educadores, primeiramente, mas concordo que sirva a todas as relações humanas, visto que, nesta concepção e abordagem, considero professor ou professora qualquer pessoa que, nas suas relações com outros seres humanos, saiba criar um espaço seguro para que os outros se expressem e, desta forma, produzam conhecimento. Este texto também é um recorte de uma produção maior, porém sua divulgação visa despertar a curiosidade para processos criativos de produção de conhecimento em sala de aula.
Inicio considerando, então, que um professor é a pessoa que cria um ambiente seguro à autoexpressão. Este ambiente, se for num formato circular, proporciona uma experiência de horizontalidade na sua relação com os seus parceiros de pesquisa (digo parceiros de pesquisa porque investigam por meio do diálogo). Esta experiência busca desenvolver nos educandos o sentimento de maior consideração, independência e confiança, perante àquele(a) que está facilitando o processo. Esta consideração e confiança é transmitida pelo professor, quando vê seus estudantes como pessoas realmente dignas e grandiosas, capazes de lhe ensinar algo através da partilha de suas próprias experiências. Os educandos, por sua vez, ao receberem esta percepção do professor, utilizam-na como um recurso valioso para atingirem sua própria autoconsideração. Desse modo, o professor abre um “campo de consciência” para autoexpressão em sala de aula (aqui considerada qualquer espaço onde se dê uma relação de aprendizagem), da forma mais autêntica possível. E isto é feito sendo ele próprio um exemplo vivo deste processo, servindo como uma espécie de “diapasão”, para que os estudantes encontrem ressonância das características de horizontalidade, autenticidade e não julgamento.
Após criar este ambiente seguro, o professor continua estimulando uma maior busca reflexiva. Partindo do pressuposto que a autoria aflora na medida em que os estudantes são provocados a pensar por si, o professor os conduz a investigar o seu próprio modo de pensar. Investigar seu próprio modo de pensar desenvolve a habilidade de construir as coisas de baixo para cima, dentro de si mesmo, e não mais das ideias, opiniões ou prescrições dadas pelos outros. Esta “chave” o professor oferece aos pesquisadores através de algumas perguntas simples, quase ingênuas, porém perspicazes, que os desafiam a lançar sua percepção sobre a percepção anterior, criando o movimento pelo qual o pensamento volta-se para si mesmo, interrogando a si mesmo para conhece-se a si mesmo.
As perguntas norteadoras dessa etapa são as seguintes:
1) O que estava vivo (pensamentos, sensações físicas, emoções, desejos, sentimentos, expectativas, etc) dentro de você antes do início do nosso diálogo?
2) Houve alguma partilha aqui que lhe causou identificação, durante o processo de diálogo?
3) O que está vivo agora dentro de você?
Na medida em que cada um vai se expondo, os demais pesquisadores recebem a dica para irem anotando as palavras-chave que aparecem nas falas dos colegas. Com frequência, durante esta etapa de investigação, os educandos conseguem expressar com muito mais abertura e franqueza suas questões pessoais e existenciais. As partilhas costumam se tornar muito mais ricas e autênticas do que na etapa anterior. Na medida em que vão se expressando, vão investigando os reais problemas existenciais que aparecem à investigação. O professor também vai investigando o pensar dos estudantes com eles. Assim, ambos se educam juntos. Ao se educarem juntos, tanto mais se motivam a querer pesquisar e investigar. O grupo já se encontra mais seguro e confiante. A produção de conhecimento e o processo de emancipação já tiveram início e aprofundam-se na mesma proporção em que os educandos vêem sua liberdade de pensamento não ser restringida, mas, pelo contrário, validada.
Ao final, estudantes e professor verificam suas investigações e separam as palavras-chave que mais lhes causaram identificação em suas pesquisas.
Ao fazer esse movimento, uma educanda comentou que o que mais havia lhe causado identificação foram as falas de duas pessoas:
1) Na primeira, ela destacou as seguintes palavras-chave: “desinteresse, escuta e relacionamentos”, que se referiam à fala de um colega a respeito da sua dificuldade de ouvir um assunto desinteressante, envolvendo diretamente a relação com o seu filho. Quando o garoto vinha lhe contar sobre os jogos de vídeo game, ele não conseguia dar-lhe atenção, devido ao desinteresse que o assunto lhe causava. E isso prejudicava o vínculo entre ambos; e 2) Na segunda, ela destacou as seguintes palavras-chave: “família, sentimentos, solidão”, que se referiam à fala de uma adolescente, que disse ter achado o encontro de ontem (o círculo de apresentação havia ocorrido no dia anterior) muito bom, porque pôde falar tudo o que sentia com relação à sua família. Transcrevo, aqui, as palavras da própria adolescente, para vermos como há convergência entre ambos os assuntos que emergiram durante este círculo. Disse ela:
“Eu com a minha família não posso me abrir, pelo menos parece que minha família não dá muita bola pra mim. Enfim, eu achei muito bom o encontro de ontem e inclusive eu chorei muito. E quando eu cheguei na minha casa, minha mãe me perguntou por que eu tava chorando. Dai falei que a gente teve um encontro e pôde falar do que a gente sentia na nossa família. Dai ela perguntou o que eu sentia da minha família. Eu falei que eu me sentia sozinha. Dai a gente começou a conversar e nós duas começamos a chorar.”
O papel do professor, nesta etapa do processo, visa levar os educandos a voltarem-se à experiência anterior, revisitando-a. Ao fazerem isto, tornam-se suficientemente distanciados dela. Ao tomarem a distância necessária dela, podem enxergá-la através daquilo que, em Filosofia, chama-se de “insight”, “espanto” ou “perplexidade”. Essa capacidade despertada permite ao ser humano não se acostumar com o mundo, mas surpreender-se com ele, questionando-o.
Foi o que, então, nos disse a educanda que havia destacado as palavras-chave, anteriormente. Segundo ela:
“Eu tive muitos insights quando ouvi aquele pai comentar o quanto era difícil para ele escutar o seu filho, quando lhe vinha falar sobre os jogos de vídeo game. Também a garota quando falou sobre a solidão, que sentia junto à sua própria família... e eu tenho dois filhos adolescentes e ali me caiu, assim, uma baita ficha de que eu também tenho esses problemas. Eu não consigo escutar algo que considero desinteressante. Eu fico mexendo no celular ou eu me disperso. E eu nunca tinha avaliado a importância de tu realmente escutar pra pessoa que é escutada. Então... às vezes meu filho me diz: “Ah, mãe, tu não me escuta, mãe”. E eu achava que escutava ele, até esse momento que eu percebi que realmente eu não tô escutando.”
Após terem separado as palavras que mais se identificaram, é hora de transformar isso num tema gerador. O tema gerador concebido pela educanda acima, por exemplo, passou a ser “A comunicação entre pais e filhos”. Os pesquisadores, agora, são incentivados a fazerem entrevistas, uns com os outros, para falar sobre a relevância desse tema dentro de suas próprias vidas. Mais uma vez, essa intervenção que o professor faz tem como propósito aproximar o sujeito (estudante) do objeto de conhecimento, que por ele vai sendo desvelado através de aproximações sucessivas entre ambos.
A atividade, então, é feita em duplas, tendo como base a seguinte pergunta norteadora: 1) Qual foi o tema que você destacou e qual é a relação dele com a sua vida?
Essa dinâmica visa a exploração e aperfeiçoamento do próprio objeto de conhecimento, que se apresenta através do tema gerador escolhido, podendo ser aperfeiçoado ao longo da realização das entrevistas. Porém, uma vez estando definido o tema, os estudantes são desafiados a aprofundar mais um passo no processo de desenvolvimento do pensamento autêntico, qual seja a capacidade de pensá-lo criticamente. Para isso, o levantamento de questões desde dentro, próprio do processo de pesquisa, aciona nos investigadores uma postura ativa e autônoma na aquisição, construção e elaboração do conhecimento pesquisado, que poderá ser apresentado, criativamente, por meio de texto escrito, apresentação artística, musical, teatral, etc. Isto restabelece a verdadeira vocação de uma sala de aula, como um espaço onde o estudante vai para produzir conhecimento, ao invés de copiá-lo.
Sobre isso, a estudante disse-nos o seguinte:
“Quando eu recebi o convite para participar dessa formação, eu pensei que iria sentar e ouvir. A gente sempre espera que o outro vá trazer o conhecimento e, na verdade, através das dinâmicas e de todo esse processo de atividades, a gente pôde fazer o conhecimento, né. A gente tem essa capacidade de desenvolver, de construir o conhecimento, que foi o que aconteceu aqui nesse período. Para mim, quando tu falou pra gente juntar as informações pesquisadas e escrever um texto próprio, sinceramente, eu tive uma sensação de estar empoderada. Senti essa coisa de ‘eu acho que eu posso sim, eu posso fazer isso sim’, e isso foi muito legal. Essa coisa de ter a coragem de criar o meu próprio texto me fez perceber que aprender de uma forma dinâmica é gostoso. Nem se compara com aquele método tradicional que a gente trabalha... um método passado onde pra você atingir sua nota você tem que repetir o que o professor disser. E aqui não, aqui você se sente à vontade. Pra mim se o aprendizado nosso fosse assim, eu acho que eu ia ser uma filósofa.”
Seu texto, com o tema gerador escolhido “A comunicação entre pais e filhos”, e a respectiva questão de pesquisa, segue abaixo:
“Como tu te sente quando não é escutado (a)?
As respostas vão girar em algo como: “eu me sinto triste e/ou com raiva, porque tenho medo de não ser amado (a), tenho medo de não ser aceito (a) e de não ser importante para a pessoa com quem estava falando. Então o fato dela não querer me escutar ou fazer de conta que está me escutando me toca de forma muito profunda.”
Talvez essa fala seja da maioria de nós, mesmo que não consciente, pois somos humanos e muito parecidos em termos de necessidades e emoções.
Aí te pergunto, como é a tua escuta? Tu és um bom ouvinte? Tu és um bom ouvinte até mesmo para assuntos que não te interessam? Como tu reage quando o assunto é desinteressante? Tu tens a sensação de que está perdendo tempo? Tenta sair de perto o mais rápido possível? Arranja desculpas para parar a conversa? Deixa a pessoa falando sozinha? Olha com cara de paisagem e totalmente sem ânimo? Não presta atenção em nada do que foi dito? Xinga ou é grosseiro com a pessoa por estar te falando isso? Acha tudo isso um saco? Começa a mexer no celular e fazer outra coisa para não “perder tempo”?
O foco deste texto é esse.... como reagimos quando alguém vem nos falar assuntos que não nos interessam.
A maioria das crianças e adolescentes, infelizmente, tendem a passar uma boa parte do dia em frente ao computador e/ou celular, e é sobre o que viram e experienciaram nas telas que falarão, e quando chegam para os pais para contar sobre o jogo, sobre o personagem x, sobre um youtuber y.... nem sempre os pais estão interessados nesses assuntos e não os escutam, as vezes fazem “de conta” que estão escutando, mas o filho percebe o desinteresse.
Assim como a esposa que quer contar o dia tão cheio de detalhes que inclui até a cor dos sapatos que as pessoas estavam usando, ou a mãe que quer relembrar tudo do “tempo dela” ou a vó que repete os mesmos assuntos.
Muitas vezes nem nos damos conta do nosso comportamento e sem perceber demonstramos nosso desinteresse, e as reações comuns ao não ser escutado frequentemente podem ser de explosão, com atitudes inadequadas a fim de agredir a pessoa que demonstra indiferença, ou comportamentos para chamar a sua atenção, ou o oposto indo para um recolhimento e introspecção não saudável, acompanhada de apatia. O adulto, e algumas crianças, costumam se calar e deixar de falar, pois sabem que não serão escutados, com o tempo, se não houverem assuntos em comum ou algo não for feito para a melhoria dessa comunicação, pode haver um distanciamento físico e emocional. Cada um vai vivendo no seu mundinho e sem interação, apesar de estarem dentro da mesma casa.
Questionar o quanto são amados por não serem ouvidos e vistos com atenção e vontade verdadeira é um alerta para os pais, filhos (as), esposos (as), netos (as)... revisarem essa atitude com urgência, pois o amor tem que ser sentido e não só falado. Dizer que ama a pessoa, mas não a escutar talvez seja percebido como contraditório e no final das contas o que conta mesmo é a atitude mais do que a palavra.
Se eu amo verdadeiramente alguém, acolho-o por inteiro, inclusive sua forma de pensar e consequentemente a sua fala, não que precise concordar com o que está sendo dito e nem tentar mudar a forma dela pensar, mas ouço com atenção em respeito ao ser que está contando.
Temos a necessidade de sermos escutados e ouvidos de verdade, ‘se tu me ouve entendo que sou importante para ti, se tu não me ouve eu coloco isso em dúvida'.
Não significa que tenhamos que ficar horas escutando algo que não nos interessa, mas, determine um tempo diário, que sejam 5 minutos de atenção total para a escuta amorosa e não julgadora às pessoas amadas a ponto de que se sintam vistas, ouvidas, aceitas e amadas.
Eu aprendi algo com isso e gostaria de dizer que atualmente eu paro tudo o que eu tô fazendo, olho meus filho nos olhos e escuto de verdade. Eu posso tá até correndo, mas tiro alguns minutos pra fazer aquilo com veracidade, não com superficialidade, né. Então, antes eu escutava superficialmente por mais tempo. Agora eu escuto de verdade por menos tempo e o comportamento do meu filho mudou. Ele se sentiu mais amado, visto, e... e isso faz toda a diferença. Na verdade, é isso o que importa na vida da gente: que as pessoas que a gente ama se sintam amadas, percebam esse amor que a gente tem por elas. E às vezes é numa coisa assim, trivial, do cotidiano, que a gente não se dá conta que não tá demonstrando o amor que gostaria que o outro sentisse”.
Buscar criar mais momentos e experiências juntos para que tenham assuntos em comum e interessantes para ambos, também ajuda muito.
Dar atenção a quem tu ama não é uma perda de tempo, pois na hora da tua morte talvez seja a falta disso que tu mais te arrependas.
Talvez tenhamos que começar a revisar nossas prioridades e o que realmente é importante, pois se estar olhando as mídias sociais e correndo o dedo no instagram é mais importante que escutar um filho, a esposa, o marido, a mãe,....então....... sinto dizer...... tuas relações vão ter problema!”
Até breve!
🌟Autor: Tiago Bueno🌾
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