🌾 Vento da Liberdade
#N°149 – Uma breve história sobre o Povo Puyanawa
Reflexões diárias – 26/1/2022
🌟 A classe dominante da sociedade geralmente cria mitos para justificar a desigualdade, a exploração e opressão social. Um dos mitos atuais, que busca tornar a sociedade alienada quanto à exploração das terras indígenas, é dizer, por exemplo, que “cada vez mais, o índio quer se tornar igual a nós” ou então que “índio é vagabundo”. Estes mitos, espalhados sistematicamente por algumas autoridades públicas, têm por finalidade a desumanização e o fim de etnias, com a finalidade de gerar consenso social que justifique a exploração e até o extermínio de povos e culturas. Não estou exagerando no que estou dizendo, pois estive junto a uma tribo da floresta amazônica que por muito pouco não foi extinta.
Acompanhe-me, por favor!
Em janeiro de 2020, após ter saído da Aldeia indígena Xikú Kurumin, do Povo Huni Kuin, no alto Rio Jordão, estado do Acre/Brasil, pegamos carona de avião até Tarauacá e outra de carro até chegarmos à cidade de Cruzeiro do Sul, onde fomos muito bem acolhidos pela prefeitura local, que nos hospedou num hotel e nos disponibilizou um motorista e automóvel para irmos conhecer as terras indígenas do Povo Puyanawa.
Além do motorista, nos acompanhava também a secretária do meio ambiente da cidade. Durante o percurso, em determinado trecho, paramos para atravessar um rio através de uma balsa. Logo que chegamos ao outro lado, em terra “firme”, passamos por carros atolados, barro por todo lado. A caminhonete em determinado momento perdeu o controle e também rodou. Paramos! O motorista colocou tração nas quatro rodas e conseguimos seguir. Ufa!
Ao longe, enxergamos um pórtico. Nos aproximamos. Quando chegamos perto o suficiente, vimos a inscrição: “Terra Indígena Povo Puyanawa”. Fomos entrando e à medida que seguíamos, um constrangimento foi tomando conta de mim. Casas de alvenaria dos dois lados da rua e igrejas evangélicas espalhadas ao longo do caminho. Eu literalmente não acreditava no que via. Foi então que a secretária, tomando a palavra, esclareceu:
- Este povo foi escravizado na época dos seringais e viram rapidamente o seu modo de vida ser ceifado em decorrência dos métodos utilizados pelos “coronéis da borracha”, para ter os índios sob seu jugo. Sua cultura foi sendo extinta e as mulheres sendo forçadas a se relacionar somente com homens não-índios. Hoje vemos essa situação de um povo que teve roubada a sua raiz.
Eu me calei, procurando segurar o desespero de incompreensão que crescia dentro de mim.
Seguimos até alcançar um ponto do caminho em que não se viam mais casas. A secretária então disse:
- Estamos chegando!
Ela havia marcado para conversarmos com o cacique do Povo Puyanawa. Foi então que avistamos uma “maloca”, que é a legítima construção indígena na floresta.
- Chegamos, disse ela.
Descemos da caminhonete. O tempo continuava nublado e chuviscando. A secretária chamou pelo cacique e então subimos uma escada de madeira. A construção possuía uma elevação do chão.
Quando entramos na sala em que o cacique se encontrava, vimos um homem, sozinho, vestido a caráter. Nos apresentamos. Ele estava sentado numa rede. Sentei-me no chão e a secretária sentou-se numa cadeira. Comecei a falar sobre a nossa viagem e isso ajudou a quebrar um pouco o gelo entre nós. Pedi para gravar nossa conversa. Ele, no entanto, solicitou que isso não fosse feito, pois a história que iria nos relatar ainda era frágil demais para ele, uma história que ainda lhe doía. Foi então que começou.
- Os nossos avós eram os poucos que ainda conversavam na língua do nosso povo. Meu pai era o cacique na época, mas não exercia a função, já que havia se tornado evangélico e eu também.
Não tínhamos mais interesse naquilo que nossos ancestrais poderiam nos passar a respeito da nossa cultura e tradição. Tínhamos vergonha e medo de sermos índios.
Então, depois que nossos avós morreram, nossa cultura se perdeu totalmente. No ano 2005, o governador do estado fez um evento juntando todas as tradições indígenas do Acre e fomos convidados.
Passamos muita vergonha. Víamos diferentes povos apresentando suas culturas e tradições, seus cantos e danças. Nós, porém, não tínhamos nada para apresentar. Não sabíamos nada sobre nossas músicas ou danças. Eu só sabia cantar hinos evangélicos.
No entanto, um novo evento reunindo as tradições indígenas foi organizado. Desta vez, seria realizado dentro das terras de nosso Povo Puyanawa.
Nos preparamos para receber as tribos, embora continuássemos evangélicos. Não havia interesse da nossa parte em resgatar nossa cultura indígena.
Nesse instante, vi o cacique baixar o semblante e respirar um pouco. Era como se estivesse recapitulando alguma memória. Depois de alguns momentos, voltou a dizer:
- Na noite do evento houve uma cerimônia de Ayahuasca (bebida típica dos povos indígenas da Amazônia que leva à expansão da consciência, utilizada em rituais ou cerimônias religiosas) em que participamos. E aconteceu algo que começou a mudar o rumo das nossas vidas.
Oito garotas daqui da aldeia foram incorporadas por espíritos. O que era uma celebração se tornou num show de horrores. Para se ter ideia, todos que estavam presentes, menos eu e o cacique da tribo Ashaninka, fugiram, saíram correndo desesperados diante do que viram.
Nesse momento, a secretária interviu, falando:
- Eu também fugi da cerimônia e via pessoas desesperadas correndo, pedindo que eu as levasse junto. Carreguei na carroceria da caminhonete muitos que subiam da forma como conseguiam, para também fugir do local.
O que seria aquilo? – Perguntava-me internamente, tentando entender o que havia ocorrido. Foi aí que o cacique continuou:
- Naquela mesma noite, diante daquele quadro que se apresentou, eu fiz uma promessa a Deus de que faria o que fosse necessário para salvar o meu povo.
Dalí para frente o episódio se repetiu, repentinamente as meninas eram jogadas para o chão ou para locais que continham água. As mesmas meninas conseguiam relatar, posteriormente, o ocorrido.
Diziam que um espírito fazia força para arremessá-las para o rio e outro vinha para segurá-las. Foi então que o cacique dos Ashaninka pediu que nós as enviássemos para a tribo deles para curá-las. Assim o fizemos!
Pagamos passagem de avião para as oito meninas e mais alguns responsáveis para ir junto. Porém, chegando lá, os espíritos também começaram a incorporar nas mulheres da tribo Ashaninka. Eles, por sua vez, decidiram que as meninas deveriam voltar e que a responsabilidade de as curar era da nossa tribo.
No entanto, após uns 5 minutos que o avião levantou vôo para trazê-las de volta, os espíritos incorporaram novamente, gerando pânico dentro do avião e fazendo com que o piloto fosse obrigado a retornar imediatamente.
O cacique Ashaninka me comunicou o que aconteceu. Combinamos que ele subiria junto ao avião. Comprei a sua passagem e ele imediatamente embarcou com as meninas, trazendo-as em segurança.
Após isso ter ocorrido, foram convocados vários pajés de outras aldeias para ajudar nossa comunidade. E assim eles vieram e fizeram uma limpeza espiritual em todo o espaço habitado pelo nosso povo. Isso amenizou em parte, mas não resolveu a situação.
Uma das meninas que havia sido incorporada pelos espíritos, era minha filha. Nos doze dias que se seguiram àquele evento, minha filha manteve-se incorporada. Não comia, não bebia, ficava atirada, presa, pois se fosse liberada, o espírito a levava para se atirar no rio. Precisávamos de uns quinze homens para segurá-la, tal era a força que se apoderava dela.
Fizemos o que pudemos para tentar curá-la. Levamos à igreja evangélica e os pastores só diziam que ela estava com o demônio, mas não conseguiam curá-la. Nisso, de quando em vez, as outras meninas também voltavam a incorporar e lá estávamos todos nós tentando segurá-las para não se jogarem no rio.
Nesse período em que a minha filha esteve incorporada, ela ficou trancada na casa do meu pai, que ainda era o cacique do nosso povo.
Num determinado dia, porém, meu pai, que também não sabia mais o que fazer com a situação, chamou-me, pegou seu cocar e, num tom de intimação, passou-me a função, dizendo-me: “Filho, faça aquilo que eu não consegui fazer pelo nosso povo. ” Eu peguei meu violão e fui cantar para minha filha os hinos evangélicos que eu conhecia, pois nosso canto indígena não tinha sido resgatado até então.
Depois de algumas orações e cantorias, minha filha, ainda incorporada pelo espírito e deitada no chão, pediu que eu colocasse minha mão sobre a sua cabeça. O espírito falou que iria me mostrar o caminho que eu deveria seguir para encontrar o local sagrado da nossa tribo e que esse encontro seria nossa salvação.
Quando coloquei minha mão sobre sua cabeça, surgiu na tela da minha mente todo o percurso a ser feito. Eu visualizei cada detalhe e também cada obstáculo para chegar até lá. Depois que minha filha me transmitiu essa mensagem, ela saiu do estado de incorporação e se levantou, voltando a se alimentar.
Foi então que saímos, eu e mais três companheiros, mata a dentro em busca do lugar sagrado. Houve muitos desafios, momentos de desespero, dúvidas, mas que culminaram numa emoção difícil de mensurar.
Quando conseguimos localizar o lugar sagrado, onde viveram nossos ancestrais, onde foram erguidas as antigas malocas e onde, atualmente, ainda há objetos de cerâmica dos nossos antepassados ali, nós quatro choramos um pranto de alívio, desespero, dor e renascimento.
Durante o percurso, continuou o cacique, a medicina Ayahuasca foi sendo utilizada para encontrarmos o caminho. As “visões” chegavam e, desta forma, fomos seguindo a sua direção em meio à mata fechada.
Tivemos a honra de ouvir detalhes dessa história. Compartilhamos emoções com o cacique e vimos que a ancestralidade do seu povo teve que usar de movimentos de quase morte para reascender a chama da história e cultura do Povo Puyanawa.
Naquele dia, conhecemos uma liderança, um homem de sabedoria e humildade, capaz de reerguer o espírito comunitário e a valorização de seu povo, além de claro, ser um estudioso e guardião de sua ancestralidade.
Até aquele momento, o cacique nos disse que já foram resgatadas, por eles mesmos, mais de 200 artes da cultura do Povo Puyanawa, através das “visões” que a medicina Ayahuasca lhes traz, num período de aproximadamente 10 anos.
Ao final, ele disse haver vencido uma barreira sobre contar essa história, que para ele ainda era muito dolorosa.
Até breve!
🌟Autor: Tiago Bueno🌾
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